Schumann por Horowitz São herança camponesa, as mãos. Estas pequenas mãos, de geração em geração, vêm de muito longe: amassaram a cal, abriram sulcos frementes na terra negra, semearam e colheram, ordenharam cabras, pegaram em forquilhas para limpar currais: de sol a sol nenhum trabalho lhes foi alheio. Agora são assim: frágeis, delicadas, nascidas para dar corpo a sons que, noutras épocas, outras mãos se obstinaram em escrever como se escrevessem a própria vida. Ao vê-las, ninguém diria que a terra corria no seu sangue. São mãos envelhecidas, mas no teclado são capazes do inacreditável: juntar nos mesmos compassos o rumor dos bosques em setembro e os risos infantis a caminho do mar.
Na Primavera, a vi dormindo; logo a prendi, atada em rosas. Não as sentiu, no sono fundo. Fitei-a bem, pende-me a vida por este olhar, da sua vida! Assim senti, mas não sabia. Só um murmúrio, falei sem fala, e sacudiu-lhe os róseos laços. E ela acordou, do fundo sono. Fitou-me bem, pende-lhe a vida, por este olhar, da minha vida. E à nossa volta, é o Paraíso.
Chaconne da Partita Nº 2 em Ré menor, BWV 1004, de J. S. Bach.
Diz-se ser a peça mais difícil alguma vez escrita para um instrumento a solo, tal a dificuldade em executá-la de forma a conseguir que todas as vozes e harmonias escondidas se tornem presentes. Dentro da harmonia da Chaconne estão as notas do coral "Christ lag in Todesbanden" (Cristo jaz nos laços da morte), com que representa a tristeza da morte e a esperança numa vida eterna. Bach terá provavelmente composto a Partita Nº 2 como um memorial fúnebre à sua primeira esposa, Maria Barbara.
Brahms (1883-1897), que chegou a fazer uma transcrição para piano desta peça, disse: "A Chaconne BWV 1004 é na minha opinião uma das mais maravilhosas e misteriosas obras da história da música. Adaptando a técnica a um pequeno instrumento, um homem descreve um completo mundo, com os pensamentos mais profundos e sentimentos mais poderosos. Se eu podesse imaginar-me a escrever, ou até mesmo conceber uma obra, tenho certeza de que a extrema excitação e a tensão emocional me deixariam louco."
É triste o espectáculo do amor apodrecendo aos poucos na fruteira as maçãs que te trouxe têm agora a pele seca e enrugada.
Luís Filipe Parrado
Luís Filipe Parrado nasceu no Seixal, em 1968, onde vive. É professor de Português no ensino secundário. É uma das mais consistentes revelações poéticas dos últimos anos.
Ainda não é tarde, dizem os amigos
aos quarenta anos. Amam as canções
e as cidades estranhas que o desejo
guarda: a pressa de Junho nas escadas
do metro e essa livraria à beira do rio – só a descobrimos no último dia, a pena
que foi. No fim da estação regressam
iguais com histórias diferentes, gratos
souvenirs. Ainda não é tarde, nada
está perdido (e ninguém lhes dá
a idade que têm). Aos quarenta anos
não sabem dizer o que aconteceu,
mas quando se juntam à roda da mesa
na vaga euforia que a hora consente,
já quase acreditam que podem voltar
à pequena praça, à luz entrevista de um
quarto de hotel, onde a noite é nova
e toda a beleza se há-de cumprir
Rui Pires Cabral
in Oráculos de cabeceira
Rui Pires Cabral nasceu em Outubro de 1967 em Macedo de Cavaleiros. Licenciou-se em História-Arqueologia em 1990. Publicou em 1985 um livro de contos mas foi através da poesia que a sua escrita atingiu um assinalável grau de maturidade. A toada mais abstracta do seu primeiro livro deu lugar nos mais recentes, a uma poesia metonímica e figurativa quantas vezes surpreendente, onde as viagens, as cidades e a música são pretexto para uma escrita prosódica muito nítida. Rui Pires Cabral não esconde um gosto por um presente concreto no que de episódico e narrativo possa ter, e onde o mais pequeno acontecimento ou cena citadina serve para dele extrair um poema.