quinta-feira, 29 de abril de 2010

Orvalho


-«Perdi a minha gota de orvalho!»
diz a flor ao céu da manhã,
que perdeu todas as estrelas.
(1861-1941)
In Aforismos

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Schumann por Horowitz

Schumann: Träumerei (ao piano, Horowitz)




Schumann por Horowitz

São herança camponesa, as mãos.
Estas pequenas mãos, de geração
em geração, vêm de muito longe:
amassaram a cal, abriram sulcos
frementes na terra negra, semearam
e colheram, ordenharam cabras,
pegaram em forquilhas para limpar
currais: de sol a sol nenhum
trabalho lhes foi alheio.
Agora são assim: frágeis, delicadas,
nascidas para dar corpo a sons
que, noutras épocas, outras mãos
se obstinaram em escrever como
se escrevessem a própria vida.
Ao vê-las, ninguém diria que
a terra corria no seu sangue.
São mãos envelhecidas, mas no teclado
são capazes do inacreditável: juntar
nos mesmos compassos o rumor
dos bosques em setembro e os risos
infantis a caminho do mar.

(1923-2005)

sábado, 24 de abril de 2010

Menina dos Olhos Tristes

Adriano Correia de Oliveira:




pensava dizer-te o 25 de abril na tua orelha
mulher
mataram o teu filho do outro lado do mar

Óscar Possacos

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O poema nasce

Picasso: [Retrato de Marie-Thérèse Walter]















O poema nasce
dentro das tuas mãos
sempre que repousa
nelas o teu rosto.

Não é uma canção:
são os lábios apenas
quando despertaram
antes da palavra.

Arquitectura última
que depois se eleva,
porque tu a criaste
para sempre livre...

Fernando Guimarães

domingo, 18 de abril de 2010

As rosas em cadeias

Johana Svoboda: Rosas de ouro


















Na Primavera, a vi dormindo;

logo a prendi, atada em rosas.
Não as sentiu, no sono fundo.

Fitei-a bem, pende-me a vida
por este olhar, da sua vida!
Assim senti, mas não sabia.

Só um murmúrio, falei sem fala,
e sacudiu-lhe os róseos laços.
E ela acordou, do fundo sono.

Fitou-me bem, pende-lhe a vida,
por este olhar, da minha vida.
E à nossa volta, é o Paraíso.
(1724-1803)
(trad. de Jorge de Sena)

sábado, 17 de abril de 2010

Chaconne

Chaconne da Partita Nº 2 em Ré menor, BWV 1004, de J. S. Bach.

Diz-se ser a peça mais difícil alguma vez escrita para um instrumento a solo, tal a dificuldade em executá-la de forma a conseguir que todas as vozes e harmonias escondidas se tornem presentes. Dentro da harmonia da Chaconne estão as notas do coral "Christ lag in Todesbanden" (Cristo jaz nos laços da morte), com que representa a tristeza da morte e a esperança numa vida eterna. Bach terá provavelmente composto a Partita Nº 2 como um memorial fúnebre à sua primeira esposa, Maria Barbara.

Brahms (1883-1897), que chegou a fazer uma transcrição para piano desta peça, disse: "A Chaconne BWV 1004 é na minha opinião uma das mais maravilhosas e misteriosas obras da história da música. Adaptando a técnica a um pequeno instrumento, um homem descreve um completo mundo, com os pensamentos mais profundos e sentimentos mais poderosos. Se eu podesse imaginar-me a escrever, ou até mesmo conceber uma obra, tenho certeza de que a extrema excitação e a tensão emocional me deixariam louco."


Ouviremos aqui a belíssima interpretação de Viktoria Mullova

Parte 1

Parte 2:

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A taça da fruta

Angelina Gomes: A taça da fruta


Natureza morta com maçãs

É triste
o espectáculo do amor
apodrecendo aos poucos
na fruteira
as maçãs que te trouxe
têm agora a pele seca e enrugada.

Luís Filipe Parrado

Luís Filipe Parrado nasceu no Seixal, em 1968, onde vive.
É professor de Português no ensino secundário.
É uma das mais consistentes revelações poéticas dos últimos anos.

domingo, 11 de abril de 2010

No imenso bosque da vida

J. S. Bach, Sinfonia da Cantata BWV 29 (transcrição para 2 harpas)
Harpa: Andreia Marques e Carmen Cardeal



No imenso bosque da vida
encontrei uma árvore em flor.
Já partiu,
sem eu saber quem era.

José Rui Fernandes
(à memória da colega Andreia Marques)

sábado, 10 de abril de 2010

Monólogo da oliveira

Gogo Korogiannou: Olive Tree
















Sobrevivo com uma pinga de água.
Um olhar de quem passa dá e sobra

muitos meses, um sorriso me basta
para reverdecer por longos anos

- a minha copa foi feita de sonho
e de coisas exactas e tão negras

como pequeno bago de azeitona.
Sinais minúsculos e trespassados

de luz na cerração densa da morte.
Vi romanos, e moiros, e judeus:

o par de mansos olhos do Cordeiro
no meu tronco perdura até ao fim.
José António Almeida

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Ainda não é tarde



Ainda não é tarde, dizem os amigos
aos quarenta anos. Amam as canções
e as cidades estranhas que o desejo
guarda: a pressa de Junho nas escadas
do metro e essa livraria à beira do rio –
só a descobrimos no último dia, a pena

que foi
. No fim da estação regressam
iguais com histórias diferentes, gratos
souvenirs. Ainda não é tarde, nada
está perdido (e ninguém lhes dá
a idade que têm). Aos quarenta anos
não sabem dizer o que aconteceu,

mas quando se juntam à roda da mesa
na vaga euforia que a hora consente,
já quase acreditam que podem voltar
à pequena praça, à luz entrevista de um
quarto de hotel, onde a noite é nova
e toda a beleza se há-de cumprir

Rui Pires Cabral
in Oráculos de cabeceira

Rui Pires Cabral nasceu em Outubro de 1967 em Macedo de Cavaleiros. Licenciou-se em História-Arqueologia em 1990. Publicou em 1985 um livro de contos mas foi através da poesia que a sua escrita atingiu um assinalável grau de maturidade. A toada mais abstracta do seu primeiro livro deu lugar nos mais recentes, a uma poesia metonímica e figurativa quantas vezes surpreendente, onde as viagens, as cidades e a música são pretexto para uma escrita prosódica muito nítida. Rui Pires Cabral não esconde um gosto por um presente concreto no que de episódico e narrativo possa ter, e onde o mais pequeno acontecimento ou cena citadina serve para dele extrair um poema.