quarta-feira, 3 de novembro de 2010

À beira de água

















Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.
in Os Sulcos da Sede

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Escapade

Ian Davie: Intimate moments


















Esta manhã viu-se tão bela no

seu próprio espelho que veio
urgente descerrar-me a janela
e a todos os pássaros do mundo.
(1921-1999)

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Corpo de esperança















Trago-te na minha vida como quem
escuta os passos musicais do tempo,
como as manhãs tocam a paisagem...

e amplamente te recebo dos horizontes da dor
que é a nossa distância de seres quase tudo.

Trago-te na minha vida como é possível
a noite trazer o luar.


(1927-1975)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Sigo o voo dos pássaros

Octavio Ocampo: Family of Birds





















Sigo
o voo dos pássaros
e parto com eles.
Abrindo asas à vida
deixo sempre uma pena
no lugar
que abandono
para marcar o regresso.
Nos olhos
levo luas
e mensagens de sol;
no sorriso
aragens de nordeste
e aroma de flores;
nos braços
porém
o branco do adeus
rubro de saudade
e a vontade
indómita
do beijo
que a boca não teve.


Recebi de Maria Mamede, poetisa e amiga tantas vezes presente neste espaço, o poema que hoje aqui partilho. Veio até mim porque, assim ela me conta, tem algo a ver com o pensamento do meu amigo Óscar Possacos, essa frase, quase um lema, para tantas ocasiões da minha vida: "Volta sempre com um pássaro no rosto e deixa sempre uma pena como quem não quer ir embora".  Este pensamento já outrora lhe havia inspirado um poema que pode ser lido na mensagem "Volta sempre!".
Muito agradeço a Maria Mamede o carinho, a atenção, a amizade, e todos os poemas que me tem dado a conhecer. É um enorme gosto apresentar aqui alguns deles em primeira mão.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O meu Big Bang


Vi o filme Barry Lyndon, de Stanley Kubrick, ainda muito jovem.
O tema musical "Sarabande" de Handel não me saiu mais da cabeça:
Cheguei a casa e toquei o tema de cor, estava muito bem gravado na memória.
O mesmo já me tinha acontecido com os temas musicais de "Laranja Mecânica", particularmente Purcell e Beethoven.
Olho agora para trás e vejo como se foi construindo o meu universo musical, esse de onde cresci e evoluí.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Em tempo de vindimas




















Que o vinho seja rubro como as maças do teu rosto
E os meus versos tão leves como os anéis do teu cabelo.
(1048-1131)

O quadro de Angelina Gomes faz parte da sua exposição "O Douro pela minha mão...." , a decorrer nas Caves "Wiese & Krohn, Sucrs", em Vila Nova de Gaia, até ao dia 29 de Outubro de 2010.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Ausência

Têm estranhado os meus amigos a minha ausência deste espaço. Na verdade tenho andado várias vezes pelos curtos comentários ou mensagens do Facebook. Mas claro que não é a mesma coisa. O Facebook tem a tentação da facilidade de troca de opiniões, mas não pemite a profundidade das mensagens, mais pensadas, que aqui se colocam; no FB não existe a presença contínua e a qualidade que aqui se consegue.Vamos então revitalizar este espaço e valorizar igualmente os blogues de tantos amigos que aqui fiz ao longo destes dois anos.

sábado, 14 de agosto de 2010

Queimada
















Esconjuro


Mochos, corujas, sapos e bruxas.
Demónios, trasgos e diabos,
espíritos das enevoadas veigas.
Corvos, píntigas e meigas:
feitiços das mezinheiras.
Podres canhotas furadas,
lar dos vermes e alimárias.
Fogo das Santas Companhas,
mau-olhado, negros feitiços,
cheiro dos mortos, trovões e raios.
Uivar do cão, pregão da morte;
focinho do sátiro e pé do coelho.
Pecadora língua da má mulher
casada com um homem velho.
Averno de Satã e Belzebu,
fogo dos cadáveres ardentes,
corpos mutilados dos indecentes,
peidos dos infernais cus,
mugido do mar embravecido.
Barriga inútil da mulher solteira,
falar dos gatos que andam à janeira,
guedelha porca da cabra mal parida.
Com este fole levantarei
as chamas deste fogo
que assemelha o do Inferno,
e fugirão as bruxas
a cavalo das suas vassoiras,
indo se banhar na praia
das areias gordas.
Ouvi, ouvi! os rugidos
que dão as que não podem
deixar de se queimar na aguardente
ficando assim purificadas.
E quando esta beberagem
baixe pelas nossas goelas,
ficaremos livres dos males
da nossa alma e de feitiço todo.
Forças do ar, terra, mar e fogo,
a vós faço esta chamada:
se é verdade que tendes mais poder
que as humanas pessoas,
aqui e agora, fazei que os espíritos
dos amigos que estão fora,
participem connosco desta Queimada.


O esconjuro da queimada foi escrito por Mariano Marcos Abalo em 1967 e revisto em 1974.
Assim o ouvi ontem, sexta-feira 13,  dito pelo Pe. Fontes.

domingo, 18 de julho de 2010

Wait a While

Depois de ter assistido ao concerto dos míticos e lendários Deep Purple, no Coliseu de Lisboa, resolvi ir à procura de Jon Lord, o único dos seus elementos que já se retirou (devido a um acidente). Fiquei feliz por saber que continua a fazer muito boa música. Encontrei-o com a Orquestra Sinfónica de Londres.
Recordam-se de Samantha Brown, a cantora que várias vezes colaborou com os Pink Floyd? Aqui está ela a cantar o belo tema de John Lord ''Wait a While'', acompanhada ao piano pelo autor e pela referida orquestra. Comovente e encantador!