domingo, 21 de março de 2010

Dia Mundial da Poesia

Celebra-se hoje o Dia Mundial da Poesia. Criado na XXX Conferência Geral da UNESCO em 16 de Novembro de 1999, tem propósito de promover a leitura, escrita, publicação e ensino da poesia através do mundo.

Não sendo eu poeta, delicio-me lendo a arte de outros, e essa aqui procuro divulgar.

Como dizia Jorge Luís Borges, "Que outros se gabem dos livros que lhes foi dado escrever, eu gabo-me daqueles que me foi dado ler."

A divina tarefa

Susan Hazard: Spring Poppies I (2005)
(As nossas mãos humanas vão fazendo com que cada Primavera nasça mais triste. E há tanta beleza em cada flor que desperta... divina, essa tarefa que a natureza tão bem realiza!)

Não, tu não sabes abrir os botões
e convertê-los em flores.
Sacode-los, bates-lhes...
mas não está em ti fazê-los florescer.
Mancha-os a tua mão;
rasga-lhes as folhas
desfá-los na poeira...
mas não tira deles
nem cor nem perfume.

Ai tu não sabes abrir o botão
e convertê-lo em flor!
O que pode abrir os botões,
fá-lo tão naturalmente!

Olha-os, nada mais,
e a seiva da vida
corre pelas veias das folhas.
Toca-os com o seu bafo,
e a flor abre as asas
dando voltas no ar;
aparecem as suas cores
ruborizadas como anseios do coração;
e o perfume
trai o seu doce segredo.
Ai, o que sabe abrir os botões,
fá-lo tão naturalmente!
(1861-1941)

quarta-feira, 17 de março de 2010

Haja o que houver

Quem leu o meu perfil ou visitou o meu MySpace já percebeu que gosto de música electrónica. Contra-senso para quem teve formação clássica? Nem por isso! A dita clássica também usa electrónica!
Mas o tema que aqui lembro, Haja o que houver, nem sequer é clássico, e tornou-se num clássico. É uma das mais belas baladas da música portuguesa. Mas poucos se lembrarão da versão electrónica! Foi editada num CD quase marginal: Madredeus Electrónico

segunda-feira, 15 de março de 2010

Passamos pelas coisas sem as ver


Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Bach Panther

Quem não se recorda do standard de Jazz usado no genérico da "Pantera Cor-de-Rosa"?
Aqui o temos tocado por The Terry Gibbs Band com o próprio compositor, Henry Mancini, ao Piano:



E se este tema servisse de base a uma composição ao estilo das fugas de Bach?
Isso o fez Stéphane Delplace, com um resultado extraordinário.
Tem passado regularmente no canal Mezzo:

sexta-feira, 5 de março de 2010

Meu país desgraçado

Joana Vasconcelos: Coração Independente


















Meu país desgraçado!...
E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há céu mais alegre do que o nosso,
Nem pássaros, nem águas…

Meu país desgraçado!...
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
- busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem forças, sem haveres!
- olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!


terça-feira, 2 de março de 2010

A paz sem vencedor e sem vencidos

Uma homenagem à Organização das Nações Unidas,
a quantos ao seu serviço têm dado a vida para que outros a tenham,
para que haja Paz e não apenas a ausência de guerra.












Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Sophia de Mello Breyner Andresen
in Dual (1972)

segunda-feira, 1 de março de 2010

O Canto do Cisne

Nunca o ouvi.
Que seja inextinguível.
Ou então silencioso
por pudor e tremendo
de raiva.
E que dure o bastante
para que nada fique por cantar.
in A Luz Fraterna

Saint-Saëns (1835-1921): Le Cygne
No Violoncelo: Mischa Maisky. Uma interpretação dentro do melhor que já ouvi!

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Amo o teu túmido candor de astro

Pin, trouxe para aqui algumas das tuas flores!
Não para que fiques sem elas; só para que continuem a ter vida...

Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade sempre altiva
Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hábito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata
Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar
Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto.

António Ramos Rosa
in O Teu Rosto (1994)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Bist du bei mir

Stölzel: Bist du bei mir
Klaus Mertens, barítono; Ton Koopman, órgão



Esta ária foi durante muito tempo atribuída a Bach, por estar incluída no livro que ofereceu a sua esposa, Ana Madalena, em 1725. Parece algo de mórbido, mas na obra de Bach a morte aparece frequentemente retratada como uma alegria, o tão esperado encontro com Deus.

Bist du bei mir, geh ich mit Freuden
Zum Sterben und zu meiner Ruh.
Ach, wie vergnügt wär so mein Ende,
Es drückten deine schönen Hände
Mir die getreuen Augen zu.

Em português:

Se estiveres comigo, partirei com prazer
para a minha morte e para meu descanso.
Ah, que final agradável para mim,
Se as tuas queridas mãos forem o último que eu veja,
fechando os meus fiéis olhos para descansar!

---=oo=---

Agora o soneto de Pablo Neruda que esta ária me recordou:

Quando eu morrer quero as tuas mãos nos meus olhos:
quero que a luz e o trigo das tuas mãos amadas
passem uma vez mais sobre mim e a sua frescura:
que sintam a suavidade que mudou o meu destino.

Quero que vivas enquanto eu, dormindo, te espero,
quero que os teus ouvidos continuem a ouvir o vento,
que sintas o perfume do mar que ambos amamos
e continues a pisar a areia que pisamos.

Quero que tudo o que amo continue vivo
e a ti amei-te e cantei-te sobre todas as coisas,
por isso, ó florida, continua a florir,

para que alcances tudo o que o meu amor te ordena,
para que a minha sombra passeie pelos teus cabelos,
para que assim conheçam a razão do meu canto.


Pablo Neruda (1904-1973)
in Cem Sonetos de Amor