quarta-feira, 24 de março de 2010

Descubra a diferença

Não compro CDs ou DVDs de música barroca sem ser interpretada com instrumentos idênticos aos da época, e interpretada de acordo com o rigor estilístico do que hoje sabemos sobre a música dessa época (de 1600 a 1750).
Não se trata de uma birra, musicalmente faz toda a diferença! As grandes massas orquestrais e interpretações ao estilo romântico, desvirtuam completamente as obras. Vamos fazer aqui uma comparação usando a conhecida Ária da Suite de Orquestra Nº3, BWV 1068.
Uma orquestra moderna - reparem na uniformidade sonora e na ausência de fraseado e da característica ornamentação típica do barroco. Parece um discurso quase sem pontuação! E reparem que escolhi a versão de um conceituado maestro que todos conhecem: Herbert von Karajan.




Agora uma interpretação autêntica (em instrumentos e em estilo), tocada por Amsterdam Baroque Orchestra, dirigida por Ton Koopman. Reparem na clareza das linhas melódicas, o diálogo entre os instrumentos, a riqueza das subtilezas tão elegantemente criadas pela ornamentação, a suavidade das cordas (de tripa, como na época), o cuidado nas arcadas... tudo é diferente! Esta é a música barroca!


Acredito que para alguns ouvidos ainda "presos" às interpretações de tradição romântica, seja mais fácil ouvir a versão com instrumentos modernos. Mas olhem que não era assim que se tocava na época de Bach... comparando com um quadro, diria que esta interpretação é uma reprodução próxima do original, enquanto a anterior não é mais que um cartaz (bastante ampliado!).

segunda-feira, 22 de março de 2010

domingo, 21 de março de 2010

Dia Mundial da Poesia

Celebra-se hoje o Dia Mundial da Poesia. Criado na XXX Conferência Geral da UNESCO em 16 de Novembro de 1999, tem propósito de promover a leitura, escrita, publicação e ensino da poesia através do mundo.

Não sendo eu poeta, delicio-me lendo a arte de outros, e essa aqui procuro divulgar.

Como dizia Jorge Luís Borges, "Que outros se gabem dos livros que lhes foi dado escrever, eu gabo-me daqueles que me foi dado ler."

A divina tarefa

Susan Hazard: Spring Poppies I (2005)
(As nossas mãos humanas vão fazendo com que cada Primavera nasça mais triste. E há tanta beleza em cada flor que desperta... divina, essa tarefa que a natureza tão bem realiza!)

Não, tu não sabes abrir os botões
e convertê-los em flores.
Sacode-los, bates-lhes...
mas não está em ti fazê-los florescer.
Mancha-os a tua mão;
rasga-lhes as folhas
desfá-los na poeira...
mas não tira deles
nem cor nem perfume.

Ai tu não sabes abrir o botão
e convertê-lo em flor!
O que pode abrir os botões,
fá-lo tão naturalmente!

Olha-os, nada mais,
e a seiva da vida
corre pelas veias das folhas.
Toca-os com o seu bafo,
e a flor abre as asas
dando voltas no ar;
aparecem as suas cores
ruborizadas como anseios do coração;
e o perfume
trai o seu doce segredo.
Ai, o que sabe abrir os botões,
fá-lo tão naturalmente!
(1861-1941)

quarta-feira, 17 de março de 2010

Haja o que houver

Quem leu o meu perfil ou visitou o meu MySpace já percebeu que gosto de música electrónica. Contra-senso para quem teve formação clássica? Nem por isso! A dita clássica também usa electrónica!
Mas o tema que aqui lembro, Haja o que houver, nem sequer é clássico, e tornou-se num clássico. É uma das mais belas baladas da música portuguesa. Mas poucos se lembrarão da versão electrónica! Foi editada num CD quase marginal: Madredeus Electrónico

segunda-feira, 15 de março de 2010

Passamos pelas coisas sem as ver


Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Bach Panther

Quem não se recorda do standard de Jazz usado no genérico da "Pantera Cor-de-Rosa"?
Aqui o temos tocado por The Terry Gibbs Band com o próprio compositor, Henry Mancini, ao Piano:



E se este tema servisse de base a uma composição ao estilo das fugas de Bach?
Isso o fez Stéphane Delplace, com um resultado extraordinário.
Tem passado regularmente no canal Mezzo:

sexta-feira, 5 de março de 2010

Meu país desgraçado

Joana Vasconcelos: Coração Independente


















Meu país desgraçado!...
E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há céu mais alegre do que o nosso,
Nem pássaros, nem águas…

Meu país desgraçado!...
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
- busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem forças, sem haveres!
- olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!


terça-feira, 2 de março de 2010

A paz sem vencedor e sem vencidos

Uma homenagem à Organização das Nações Unidas,
a quantos ao seu serviço têm dado a vida para que outros a tenham,
para que haja Paz e não apenas a ausência de guerra.












Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Sophia de Mello Breyner Andresen
in Dual (1972)

segunda-feira, 1 de março de 2010

O Canto do Cisne

Nunca o ouvi.
Que seja inextinguível.
Ou então silencioso
por pudor e tremendo
de raiva.
E que dure o bastante
para que nada fique por cantar.
in A Luz Fraterna

Saint-Saëns (1835-1921): Le Cygne
No Violoncelo: Mischa Maisky. Uma interpretação dentro do melhor que já ouvi!