sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Uma explicação de ternura

20 de Setembro (domingo)
16.00 horas
Ateneu Comercial do Porto
Lançamento do livro Pin – Uma explicação de ternura

Luísa Azevedo, a autora, já nos revelou belos poemas no seu blogue pin-gente, e nos comentários que gentilmente aqui deixa.
Fica o CONVITE para este evento que bem merece a presença de todos. Se tal não for possível, não deixem de procurar esse livro, “uma mescla única de palavras e imagens, em que a poesia extravasa do papel para os sentires de quem a lê”.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Quase retrato












(a J. R. Fernandes - Quase retrato)

A mão
que prende e dá
o tom perfeito
da ária inacabada
do meu pranto
é mão
e verbo no sujeito
compondo a melodia
doutro canto...
e tocando, afaga
acarinha
a divina flauta Pastoril
e é o próprio Pã
Primaveril
que à Natureza acorda
do quebranto!...
Maria Mamede, 14/09/09
in Mãos

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O que estou a ouvir

Por vezes a música inspira a poesia. Outras, é a poesia a inspirar a música.
Depois de ler um poema de Maria Mamede, foi este o tema que fiquei a ouvir:
De Claude Debussy (1862-1918), Syrinx (uma obra prima para Flauta solo!), aqui interpretado por Paula Robison.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O corpo não espera












O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sede, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo.

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.
in Antologia Poética

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A de sempre, toda ela

Quadro:
A possible dream
William Duncan












Se eu vos disser: «tudo abandonei»
É porque ela não é a do meu corpo,
Eu nunca me gabei,
Não é verdade
E a bruma de fundo em que me movo
Não sabe nunca se eu passei.

O leque da sua boca, o reflexo dos seus olhos
Sou eu o único a falar deles,
O único a ser cingido
Por esse espelho tão nulo em que o ar circula através de mim
E o ar tem um rosto, um rosto amado,
Um rosto amante, o teu rosto,
A ti que não tens nome e que os outros ignoram,
O mar diz-te: sobre mim, o céu diz-te: sobre mim,
Os astros adivinham-te, as nuvens imaginam-te
E o sangue espalhado nos melhores momentos,
O sangue da generosidade
Transporta-te com delícias.

Canto a grande alegria de te cantar,
A grande alegria de te ter ou te não ter,
A candura de te esperar, a inocência de te conhecer,
Ó tu que suprimes o esquecimento, a esperança e a ignorância,
Que suprimes a ausência e que me pões no mundo,
Eu canto por cantar, amo-te para cantar
O mistério em que o amor me cria e se liberta.

Tu és pura, tu és ainda mais pura do que eu próprio.

Paul Eluard in "Algumas das Palavras"
Tradução de António Ramos Rosa

domingo, 6 de setembro de 2009

O que estou a ouvir

Vivaldi - Stabat Mater
Acordei com esta melodia na cabeça (quase no ouvido!).
Vim ouvi-la enquanto comentava uma mensagem num blogue amigo. E continuei a ouvir.
Trata-se de obra composta para um festival de música sacra que, segundo parece, terá sido composta um pouco apressadamente, dada a simplicidade com que estão escritas as cordas, e o recurso a repetições. Mas essa simplicidade confere-lhe uma enorme clareza para a bela linha melódica. Uma daquelas melodias que fica a cantar na nossa cabeça!
Deixo a sugestão de audição... para hoje ou outro dia.
(Neste excerto ouviremos a interpretação do grande contratenor Andreas Scholl)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Carta de José a José

Eu te digo, José: por esta carta
Não garanto mentira nem verdade:
A ciência de mim se aparta
Desta náusea de ser e de vontade.
São inúteis cobiças, vãos desgostos,
São braços levantados, já caídos,
São as rugas que vincam os cem rostos
Da comédia e do jogo repetidos.
Desse lado da mesa (ou deste espelho)
Vais seguindo as palavras invertidas:
Verás melhor assim se (quanto) valho
Ao invés dos sinais e das medidas.
(Correm águas geladas no meu rio,
E mortos cantos de aves, derivando
Por silêncio frustrado e calafrio,
Vão manhã doutro dia recordando.)
Cai a chuva do céu, e não te molha,
Está a noite entre nós, e não te cega.
Não sorrias, José: à tua escolha
O que me sobra de alma se me nega.
Desse lado da mesa, onde me acusas,
Te levantas. A marca do teu pé,
Na soleira da porta que recusas,
Fecha de vez a carta abandonada.
Tua sombra pisada, teu amigo — José.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Um portal no feminino

Maria João Almeida, conquistou o seu espaço e os seus leitores, desbravando terreno num campo predominantemente masculino. Creio ser actualmente a única mulher em Portugal a escrever sobre vinhos! O sucesso do trabalho desta enófila ganha agora maior visibilidade no portal recém lançado, ainda com alguns capítulos em construção, mas já bem recheado de conteúdo!
Notas de prova, notícias diárias, receitas, clube de vinhos, e ainda, retirando as palavras do próprio portal, "uma forte componente de gastronomia e turismo, áreas necessariamente relacionadas com o vinho, nobres uvas que a natureza produz e o homem sabiamente transforma."
Os meus parabéns e votos de sucesso! Serei leitor assíduo e recomendo-o aos meus leitores!

sábado, 29 de agosto de 2009

O que estou a ouvir

Musicalmente falando sou, como já dizia Sócrates - o filósofo - um "cidadão do mundo". E não me refiro apenas à música erudita, onde nunca olho a nacionalidades para a escolha de uma obra a interpretar. O mesmo sinto em relação às músicas nacionais de diversos países. Como não adorar a flauta irlandesa (grande Chris Norman!) e a adorável música que com ela se faz?
Mas hoje falarei de um instrumento que canta a identidade de um povo. Um instrumento que chora as mágoas do primeiro genocídio do séc. XX, mas também canta as glórias da enorme riqueza cultural que esse país possui e espalha pelo mundo. O país: Arménia; o instrumento: Duduk.
Fiquei impressionado com a beleza da música que é possível extrair de um instrumento tão simples e tão limitado no número de notas (genericamente apenas uma oitava), cujas origens remontam a 3000 anos. Mas o que lhe falta em recursos compensa-o em expressão. Oiça-se um dos grandes intérpretes, Jivan Gasparyan, e logo se compreenderá do que falo!
O CD que estou a ouvir resulta do encontro de Jivan Gasparyan com o iraniano Hossein Alizedeh (um dos mestres do Tar, um alaúde persa), ao qual se juntam outros grandes músicos. Reuniu-se assim um grupo que interpreta músicas da tradição arménia e persa, com momentos de uma beleza quase hipnótica, capaz de nos transportar para outras paragens, com sonoridades bem distintas da nossa música ocidental. Uma descoberta para mim que aqui partilho, um CD para "espreitar" na Amazon (ou onde o encontrarem!...).

Um agradecimento à minha colega arménia Marina Dellalyan, que me sensibilizou para uma mais atenta audição do Duduk e indicou alguns nomes dos seu principais executantes.
Acrescento ainda que o Duduk e sua música foram decretados pela UNESCO, em 2005, Património Cultural Imaterial da Humanidade.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Escreva!

«O Mestre diz: Escreva! Seja uma carta, um diário ou algumas anotações enquanto fala ao telefone — Mas escreva! Escrever nos aproxima de Deus e do próximo. Se você quiser entender melhor seu papel nesse mundo, não deixe de escrever. Procure colocar toda a sua alma por escrito, mesmo que ninguém leia — ou, o que é pior, mesmo que alguém termine lendo a parte que você não queria que fosse lida. O simples facto de escrever nos ajuda a organizar nossos pensamentos e ver mais claramente o que está à nossa volta. Um papel e uma caneta operam milagres — aliviam a dor, transformam sonhos em realidade e recuperam a esperança perdida. "A palavra tem poder".»

in Maktube (1994)