sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Vamos a votos

A campanha eleitoral chega hoje ao fim. Ficou devidamente esclarecido? Acha que sabe em que partido votar segundo a sua consciência e opinião? Está seguro disso? Ainda está indeciso?
O site Bússola Eleitoral dá uma ajuda ao nosso esclarecimento. Já que não conseguimos ler o programa eleitoral de todos os partidos, podemos pelo menos comparar as suas principais linhas com as nossas ideias. Não é um jogo ou brincadeira! E se o resultado for diferente do que esperava... bem, pode sempre rever se houve algum engano na sua resposta. Se mesmo assim continua a dar o resultado que não imaginava, talvez seja altura de dar voz a quem defende as suas ideias, mesmo que seja um pequeno partido a desbravar terreno para um dia ter lugar no parlamento (o site permite até indicar o grau de confiança em cada líder!).
A teoria do voto útil tem dado grandes inutilidades!

Dar-te-ei a mão









dar-te-ei a mão no silêncio,
na escuridão da noite,
quando não tiveres outra para apertar.
entender-te-ei os meus braços para um abraço,
no frio de um inverno solitário,
na ausência de uma meiga voz em teu ouvido,
ou quando o teu corpo se sentir vazio.
beijar-te-ei na face,
na angústia de uma cinzenta madrugada,
quando dos teus olhos se rasgar uma brilhante estrada.
quando menos esperares eu chegarei a ti!


Poema inspirado pelo post anterior, voo que aqui faz sentido destacar.
Obrigado Luísa, pela ternura que trazes a este blogue!

domingo, 20 de setembro de 2009

Ajudar o próximo

Ajudar o próximo nem é assim tão difícil! Uma contribuição monetária para uma instituição que lhe dará apoio, que tratará da sua saúde, e a nossa consciência fica tranquila! Mas se esse próximo está mesmo próximo? Quero dizer, se esse próximo está tão perto de nós que nos cruzamos diariamente com ele? E se for nosso colega? E se for um nosso amigo? E se até for nosso familiar? E se é alguém cujo olhar nos interpela, alguém que precisa de nós enquanto pessoa, e não dos nossos bens? E se ele nem for muito amável connosco, nem reconhecido para com o nosso gesto?
Ajudar o próximo torna-se assim em algo mais difícil, temos que ser nós a fazê-lo, de forma sincera e desinteressada, e não podemos "comprar" quem o faça por nós!
A esse ajudar o próximo chamaremos antes "amar o próximo", e o amor dá-se: não se compra nem se vende!
E o próximo ali está... tão próximo todos os dias!...

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Uma explicação de ternura

20 de Setembro (domingo)
16.00 horas
Ateneu Comercial do Porto
Lançamento do livro Pin – Uma explicação de ternura

Luísa Azevedo, a autora, já nos revelou belos poemas no seu blogue pin-gente, e nos comentários que gentilmente aqui deixa.
Fica o CONVITE para este evento que bem merece a presença de todos. Se tal não for possível, não deixem de procurar esse livro, “uma mescla única de palavras e imagens, em que a poesia extravasa do papel para os sentires de quem a lê”.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Quase retrato












(a J. R. Fernandes - Quase retrato)

A mão
que prende e dá
o tom perfeito
da ária inacabada
do meu pranto
é mão
e verbo no sujeito
compondo a melodia
doutro canto...
e tocando, afaga
acarinha
a divina flauta Pastoril
e é o próprio Pã
Primaveril
que à Natureza acorda
do quebranto!...
Maria Mamede, 14/09/09
in Mãos

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O que estou a ouvir

Por vezes a música inspira a poesia. Outras, é a poesia a inspirar a música.
Depois de ler um poema de Maria Mamede, foi este o tema que fiquei a ouvir:
De Claude Debussy (1862-1918), Syrinx (uma obra prima para Flauta solo!), aqui interpretado por Paula Robison.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O corpo não espera












O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sede, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo.

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.
in Antologia Poética

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A de sempre, toda ela

Quadro:
A possible dream
William Duncan












Se eu vos disser: «tudo abandonei»
É porque ela não é a do meu corpo,
Eu nunca me gabei,
Não é verdade
E a bruma de fundo em que me movo
Não sabe nunca se eu passei.

O leque da sua boca, o reflexo dos seus olhos
Sou eu o único a falar deles,
O único a ser cingido
Por esse espelho tão nulo em que o ar circula através de mim
E o ar tem um rosto, um rosto amado,
Um rosto amante, o teu rosto,
A ti que não tens nome e que os outros ignoram,
O mar diz-te: sobre mim, o céu diz-te: sobre mim,
Os astros adivinham-te, as nuvens imaginam-te
E o sangue espalhado nos melhores momentos,
O sangue da generosidade
Transporta-te com delícias.

Canto a grande alegria de te cantar,
A grande alegria de te ter ou te não ter,
A candura de te esperar, a inocência de te conhecer,
Ó tu que suprimes o esquecimento, a esperança e a ignorância,
Que suprimes a ausência e que me pões no mundo,
Eu canto por cantar, amo-te para cantar
O mistério em que o amor me cria e se liberta.

Tu és pura, tu és ainda mais pura do que eu próprio.

Paul Eluard in "Algumas das Palavras"
Tradução de António Ramos Rosa

domingo, 6 de setembro de 2009

O que estou a ouvir

Vivaldi - Stabat Mater
Acordei com esta melodia na cabeça (quase no ouvido!).
Vim ouvi-la enquanto comentava uma mensagem num blogue amigo. E continuei a ouvir.
Trata-se de obra composta para um festival de música sacra que, segundo parece, terá sido composta um pouco apressadamente, dada a simplicidade com que estão escritas as cordas, e o recurso a repetições. Mas essa simplicidade confere-lhe uma enorme clareza para a bela linha melódica. Uma daquelas melodias que fica a cantar na nossa cabeça!
Deixo a sugestão de audição... para hoje ou outro dia.
(Neste excerto ouviremos a interpretação do grande contratenor Andreas Scholl)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Carta de José a José

Eu te digo, José: por esta carta
Não garanto mentira nem verdade:
A ciência de mim se aparta
Desta náusea de ser e de vontade.
São inúteis cobiças, vãos desgostos,
São braços levantados, já caídos,
São as rugas que vincam os cem rostos
Da comédia e do jogo repetidos.
Desse lado da mesa (ou deste espelho)
Vais seguindo as palavras invertidas:
Verás melhor assim se (quanto) valho
Ao invés dos sinais e das medidas.
(Correm águas geladas no meu rio,
E mortos cantos de aves, derivando
Por silêncio frustrado e calafrio,
Vão manhã doutro dia recordando.)
Cai a chuva do céu, e não te molha,
Está a noite entre nós, e não te cega.
Não sorrias, José: à tua escolha
O que me sobra de alma se me nega.
Desse lado da mesa, onde me acusas,
Te levantas. A marca do teu pé,
Na soleira da porta que recusas,
Fecha de vez a carta abandonada.
Tua sombra pisada, teu amigo — José.