terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Uma companhia para o bacalhau

Pronto, pronto, vários amigos protestaram porque não indiquei aqui alguns vinhos para o Natal! Têm razão, aqui vai então:
Para o bacalhau (contando que ele esteja bem regado com azeite de qualidade), aconselham alguns especialistas que sigo de perto, que sejam bebidos vinhos com alguma acidez e menos frutados. Então escolhi:
Quinta das Bágeiras, Bairrada Reserva Tinto 2005 (± 8 Eur.)
Casa de Santar, Dão Tinto 2005 (± 5 Eur.)
Casa de Santar, Dão Reserva Tinto 2005 (± 10 Eur.)

Para acompanhar a sobremesa, que tal um Moscatel de Setúbal com pelo menos 10 anos? Verá que ligará bem com qualquer doce, e muito bem com o Bolo-Rei.
Deixe o Porto Vintage ou LBV para o queijo, e um bom Tawny para a conversa.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

A minha árvore de Natal

Quero Senhor, neste Natal, armar uma árvore dentro do meu coração e nela pendurar em vez de presentes, os nomes de todos os meus amigos. Os amigos de longe e de perto. Os antigos e os mais recentes. Os que vejo a cada dia e os que raramente encontro. Os sempre lembrados e os que às vezes ficam esquecidos. Os constantes e os intermitentes. Os das horas difíceis e os das horas alegres, os que sem querer, eu magoei, ou, sem querer me magoaram. Aqueles a quem conheço profundamente e aqueles que menos me são conhecidos. Os que pouco me devem e aqueles a quem muito devo. Meus amigos humildes e meus amigos que exercem cargos importantes. Os nomes de todos os que já passaram pela minha vida. Uma árvore de muitas raízes muito profundas para que seus nomes nunca mais sejam arrancados do meu coração. De ramos muito extensos, para que novos nomes vindos de todas as partes, venham juntar-se aos existentes. De sombras muito agradáveis para que nossa Amizade, seja um momento de repouso nas lutas da vida. Que o Natal esteja vivo dentro de nós em cada dia do ano que se inicia, para que juntos possamos viver sempre o Amor e a Fraternidade.

Há vários anos que esta mensagem, de auto desconhecido, circula pela Net. Mas é uma bela mensagem cujas palavras vou fazer minhas, para desejar um santo e feliz Natal a todos os meus leitores.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Silêncio Amoroso e Fecundo











Nos dias ociosos
que pena senti pelo tempo perdido!

Mas terá sido alguma vez perdido, Senhor?
Não tiveste Tu a minha vida,
a cada instante, em tuas mãos?

Escondido no coração das coisas,
Tu nutres sementes
e transforma-las em rebentos,
e os botões em flores
e as flores em frutos.

Estava eu cansado,

dormitando no meu leito ocioso,
e pensava que nada fazia.
Quando acordei, pela manhã,
vi o meu jardim
cheio de flores maravilhosas.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Rembrandt em Lisboa

Apresento aqui a sugestão de uma visita ao Museu Nacional da Arte Antiga, onde estará em exposição uma obra-prima de Rembrandt, entre outras novidades. Diz assim a agência Lusa:
"Um quadro de Rembrandt representando o seu filho Titus sentado à secretária é a estrela do novo percurso da visita às salas da pintura e das artes decorativas europeias do Museu Nacional de Arte Antiga.
A tela de 1655 foi cedida pelo Museu Boijmans van Beuningen, de Roterdão (Holanda), até 08 de Fevereiro, em troca pelo empréstimo, por igual período, do São Jerónimo, de Dürer, uma das obras-primas do acervo do museu português.
Trata-se de "uma jóia da pintura holandesa", nas palavras de Paulo Henriques, director do MNAA, segundo o qual é a primeira vez que uma obra do mestre holandês é emprestada a Portugal.
A pintura é dominada por tons escuros em que sobressai o rosto do filho do pintor, então com 12 anos, aparentemente a reflectir sobre um desenho que estaria a fazer numa secretária, sobre a qual uma camada de folhas de papel parece projectar luz à sua frente.
A acompanhar o quadro - que ocupa o centro de uma sala e sobre o qual converge a perspectiva de todo um corredor - o museu holandês cedeu igualmente um conjunto de três desenhos e cinco gravuras de pequenas dimensões, entre os quais dois auto-retratos e cenas familiares, uma delas com a mãe de Titus.
O São Jerónimo, de Albrecht Dürer, foi cedido para integrar uma importante exposição do museu holandês dedicada a Erasmo e à sua meditação sobre o ser e o destino humano.
A remodelação das salas da pintura e das artes decorativas europeias - que foram pintadas de novo e receberam uma nova iluminação vertical, próxima da original - está na origem da alteração do percurso que os visitantes passam a fazer a partir de terça-feira.
A visita ao núcleo começa logo à direita da escadaria do Palácio Alvor, a parte original do edifício, o que, para Paulo Henriques, lhe dá "um acesso mais nobre" e permite uma melhor adequação das salas às escalas das obras expostas.
"Inverteu-se o percurso da visita e diminuiu-se o número de peças expostas, o que permitiu um ajustamento mais correcto das peças à dimensão das salas", afirmou o responsável pelo museu numa visita guiada em que os jornalistas puderam testemunhar a azáfama final dos técnicos para a colocação das ultimas peças nos seus lugares.
"É outra maneira de mostrar a colecção e de valorizar as peças, dando-lhes mais leitura e criando mais sentido à pintura. Há menos pintura exposta, mas vê-se muito melhor", sublinhou.
Na nova montagem das salas e das peças participou a arquitecta Célia Anica.
Além da sala dedicada a Rembrandt, duas outras deste conjunto de 22 salas receberam tratamento diferenciado, nomeadamente aquela onde se expõe o tríptico "As tentações de Santo Antão", de Hyeronimus Bosch, que está montado cenograficamente, e o salão nobre, onde estão tapeçarias flamengas, esculturas cerâmicas e uma mesa italiana de pedras duras.
Todas as salas estarão dotadas de sinalética e pontos com documentação sobre as obras expostas.
O trabalho de remontagem recebeu o apoio mecenático do Millennium BCP, que aceitou uma proposta do museu para aplicar neste projecto de requalificação permanente do MNAA uma verba inicialmente destinada à ultima exposição temporária agendada para este ano, sobre o escultor Machado de Castro.
Contribuíram igualmente o Instituto dos Museus e da Conservação e a companhia holandesa Philips, que forneceu o material de iluminação que simula a luz zenital das salas.
CM.
Lusa/fim"

Para finalizar, sugiro uma visualização do "desembarque" da referida obra-prima AQUI.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Natureza, uma terapia

O trabalho abunda (felizmente, diremos!) e o tempo sempre escasseia. E assim vamos vivendo, em constante luta, sempre com esforço e em permanente tensão. Olhamos os diários e ali temos de caras a situação económica percária, a conjuntura mundial, os assaltos, os crimes, os negócios. A paz parece andar assustada, ou ela se afasta de nós ou nós dela. Ah, afinal estavam ali umas notícias, sem grande destaque, que com alguma boa vontade poderemos reter!
Até os divertimentos, socializados e poucas vezes sociáveis, encerram em si alguma tensão: horas fixas, espaços fechados, não incomodar os demais, estar calados a assistir ao que prepararam para nós.
Tudo isto se reflete no nosso espírito, com alguma caridade para com nós próprios lá dominamos os nervos, a ansiedade, a já referida tensão. Aguentaremos muito tempo? Lá vêm as psicoses, mal do século, exigindo um tratamento adequado.
Ah, como é preciso um passeio no campo, abrir a alma à natureza e reencontrarmo-nos com ela! Tão pouca gente ainda olha para as estrelas, procurando as constelações, ou a imensidão do mar, a grandeza das montanhas!
Faltará tempo, mas falta sobretudo disponibilidade interior para ir ao encontro da natureza que está lá à nossa espera. Não faltemos, será difícil viver desvinculado dela!

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Parabéns Manoel de Oliveira!

Manoel de Oliveira, o maior cineasta do mundo, completa 100 anos!

Goste-se mais ou goste-se menos, uma coisa é certa: devemos render-nos à evidência da apreciação dos especialistas. Render-nos não no sentido de "engolir", mas de considerar seriamente a opinião. No jornal PÚBLICO vêm hoje publicados importantes depoimentos que vale a pena ler na íntegra, do quais aqui coloco alguns recortes:

“É muito fácil explicar por que é que ele é o maior cineasta do mundo”, diz Bonnaud. “O cinema, mesmo quando é um grande cinema feito pelos maiores cineastas, obedece a um certo número de regras que são intocáveis. O que é fascinante em Oliveira é que ele não respeita regra nenhuma. É alguém que opera quase como se não tivesse havido cinema antes dele – é preciso inventar ou reinventar tudo. É como um primitivo italiano que tem de inventar a pintura porque ela não existe antes dele ou como Jean Dubuffet ou Picasso, que não se contentam com os códigos da pintura, mas que a querem reinventar o tempo todo.”

“Manoel de Oliveira é a mais bela anomalia do mundo”, escreveu Bonnaud em 2000, num texto para um catálogo do Festival de Turim sobre o realizador, e era, evidentemente, um elogio. Aí, o crítico francês demonstra como Oliveira não faz nada como ninguém.

“Não existem cinco cineastas que sejam tão livres assim”, diz Miguel Marías, ex-director da Cinemateca Espanhola, figura tutelar da crítica em Espanha (e irmão do escritor Javier Marías). “A única certeza que se pode ter é que cada filme seu será uma surpresa: nunca é convencional, é sempre atrevido”.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Agora os brancos

Na mensagem de 22 de Novembro apresentei vários vinhos tintos com excelente relação qualidade/preço. Respondendo a alguns apelos, faço agora o mesmo para os brancos.
É sabido que em geral os tintos são mais apreciados, mas para um peixe, um marisco, uma refeição ligeira (mesmo de carne), os brancos tornam-se uma excelente companhia.
Então aqui se seguem algumas recomendações, tendo em conta que mais uma vez aceitei o desafio de não me alongar para lá dos 5 Euros, e de os classificar de 0 a 5:

Verde: Deu La Deu Alvarinho 2007 (4,5) (+ de 5 Eur., mas justifica)
Via Latina Alvarinho 2007 (4)
Adega Coop. Ponte de Lima - Loureiro 2007 (4)
Douro: Caves Santa Marta 2006 (4)
Valdarante 2007 (4)
Evel 2007 (4)
Quinta da Pacheca 2007 (4)
Beiras: Terra Franca 2007 (4)
Távora-Varosa: Terras do Demo Seco 2006 (4)
Bairrada: Angelus Escolha 2007 (4)
Adega Cooperativa de Souselas 2006 (4)
Dão: Duque de Viseu 2007 (4)
Quinta do Serrado Malvasia Fina 2007 (4)
Estremadura: Quinta das Pancas 2007 (4)
Bucelas: Prova Régia Arinto 2007 (4)
Bucellas 2007 (4)
Ribatejo: Casal da Coelheira 2007 (4,5)
Companhia das Lezírias Fernão Pires 2007 (4)
Terras do Sado: Catarina 2007 (4,5)
Serras de Azeitão 2007 (4)
BSE Seco 2007 (4)
Igrejinha 2007 (4)
Terras do Pó 2007 (4)
Palmela: Dona Ermelinda 2007 (4)
Fontanário de Pegões 2007 (4)
Alentejo: Redondo 2007 (4,5)
Anta da Serra 2007 (4,5)
Reguengos 2007 (4)
Marquês de Borba 2007 (4)
Terras de Baco 2007 (4)
E. A. 2007 (4)
Monte Velho 2007 (4)

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Soneto






Pudesse o que penso exprimir e dizer
Cada pensamento oculto e silente,
Levar meu sentir moldado na mente
A ser natural perante o viver;

Pudesse a alma verter, confessar

Os segredos íntimos em meu ser;
Grande eu seria, mas não pude aprender
Uma língua bem, que expresse o pesar.

Assim, dia e noite novo sussurar,

E noite e dia sussurros que vão...
Oh! A palavra ou frase em que atirar

O que penso e sinto, acordando então

O mundo; mas, mudo, não sei cantar,
Mudo como as nuvens antes do trovão.
Fernando Pessoa (1888-1935)

domingo, 7 de dezembro de 2008

Ricas prendas

No meio de tanta azáfama esquecemo-nos que o Natal é uma festa cristã. Não estranho que os não cristãos se associem a ela, procurando fazer uma festa de família, de amigos, um tempo para partilhar com os outros. Ninguém quer viver o Natal na solidão.
Oferecem-se então presentes, tradição que simboliza os dons oferecidos pelos Magos ao Menino Jesus. Hoje poderemos dar-lhe ainda o significado de que Deus se tornou presente na vida da humanidade, enviando-lhe o seu Filho.
Ah, com este sentido poderemos voltar à essência! Através de um presente, tornarmo-nos presentes na vida dos outros! Esqueçamos as prendas que se dão só por dar, o dinheiro que vamos gastar, onde e o quê para comprar. Recordo o exemplo da minha amiga Mariana, que sempre que possível procura ela própria, com a sua família, fazer os presentes. Surpreende-nos com lindas caixas maravilhosamente forradas, bolachinhas feitas em conjunto com os filhos, um belo postal com uma especial mensagem, e estes são apenas alguns exemplos. Temos tudo guardado (até, as bolachas, que mais que no estômago, ficam no coração!), e assim torna a sua família mais presente no seio de outra família, e faz com que a amizade, continuamente recordada, esteja sempre presente também.
É disto que precisamos, não de prendas de maior ou menor valor, mas de presentes que nos tornem de facto mais presentes na vida de alguém.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Jardins de Luz

Finalmente o aguardado CD Jardins de Luz, com obras do grande amigo Carlos Gutkin, interpretadas por ele próprio. Neste CD participo tocando na Suite Piazzollana (3 andamentos).
Com orgulho cito aqui as gentis palavras de Carlos Gutkin, que podem ler-se nos agradecimentos:

A José Rui Fernandes, companheiro das "an­danças musicais" do Duo Atlântico, e flautista de fina sensibilidade. Obrigado pela sua interpre­tação na "Suite Piazzollana", obra esta que lhe é dedicada.

Como descrever este disco que, mesmo sendo suspeito, me atrevo a classificar como um dos melhores discos de guitarra que já ouvi? Transcreverei aqui o que foi escrito pelo próprio compositor:

As obras que se apresentam neste CD são fruto das raízes musicais e culturais que influíram na minha formação como músico e guitarrista: de Cuba, os ritmos sincopados do Son que se podem encontrar, por exemplo, em Son da Primavera ou em Sonete de Outono. Da Argentina, as três peças da Suite Piazzollana para Flauta e Guitarra, escritas em homenagem a Astor Piazzolla. Vemos por exemplo que na Milonga-Son confluem os elementos melódico e rítmico característicos do Son cubano (como as síncopas) e os elementos rítmico e harmónico do Tango e da Milonga argentina. No segundo tango, Triste como un tango triste, aparece o elemento romântico e lírico do tango contrastando com duas secções de dança. O terceiro tango da Suite Piazzollana, Volando Contigo, começa com um arpejo rítmico e contrapontístico cíclico, e a Flauta insiste em perpetuar uma simples melodia, terminando num frenesim rítmico, quase improvisado, com ritmos próximos do Candomblé. Em algumas obras sentimos a presença de formas próximas do Pop, como em Ícaro II ou La Luz y tu piel, e noutras estão presentes características do género clássico Romântico, como nas valsas Vals de Vez e Valsa do Fim de Ano (nesta última estão presentes também citações do Joropo venezuelano) e no tremolo de O Alquimista, composta para a peça de teatro “A Procura do Presente” em 1987, e Introdução ao Alquimista composta mais tarde, em 2001, para criar equilíbrio e contraste com a secção do tremolo. Quando escrevi a peça Jardins de Luz, título que também dá nome a este disco, deixei-me seduzir pelas possibilidades rítmicas e hamónicas que tinha conseguido, próximas das linguagens da música electrónica (pelo elemento rítmico e melódico em ostinato), da linguagem contemporânea e do jazz (pelo seu contexto harmónico) e das linguagens próximas da música pop, do rap e também do flamenco - pelos ritmos sincopados característicos utilizados. É desde os primeiros compassos que se pode perceber esta linguagem «híbrida».
Carlos Gukin