sexta-feira, 3 de abril de 2009

Agostinho da Silva

Agostinho da Silva, um dos maiores pensadores portugueses do século XX, faleceu há 15 anos.
Gostava de o ouvir, de reflectir com ele, e reflectir no que ele me levava a pensar. Concordasse ou não, admirava-o. Eu e o mundo. Quem não admira um homem assim?
Algumas das suas palavras:

Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus, não são seus. Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição, venha a pensar o mesmo que eu; mas, nessa altura, já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem

Agostinho da Silva, "Cartas a um jovem filósofo"

E visualizar algumas entrevistas no YouTube

quarta-feira, 1 de abril de 2009

O que estou a ouvir

Pelham Humfrey (1647–1674)
Verse Anthems
Romanesca
Nicholas McGegan, dir.
Harmonia Mundi HMX2907053


Tendo começado como menino de coro na Capela Real, Pelham Humfrey tornou-se rapidamente no principal compositor da música religiosa de Londres. Com a idade de 17 anos foi enviado para França e Itália para desenvolver os estudos musicais.
A sua morte percoce aos 27 anos, uma das maiores tragédias da história da música inglesa, não impediu que ele se tornasse uma forte influência entre os seus pares, incluindo os grandes compositores William Turner, Henry Purcell e John Blow.
Os seus hinos (antífonas, versão anglicana dos motetes), constituem a parte mais substancial do seu legado.
Vele a pena conhecer tudo o que de tão belo nos deixou na sua breve passagem por este mundo.
É uma das minhas escolhas para este tempo quaresmal.
(É possível ouvir um pouco AQUI)

segunda-feira, 23 de março de 2009

O Coração da Primavera












A PRIMAVERA entrou no meu corpo
com suas folhas e flores.
Durante toda a manhã
as abelhas estão zumbindo em mim,
e os ventos ociosos
não se cansam de jogar
com as minhas sombras.

Uma doce fonte
corre do coração do meu coração;
a alegria lava os meus olhos
com o orvalho da manhã;
e a vida vibra em todo o meu ser,
como a corda de um alaúde.

Amor dos meus dias sem fim,
solitário vagabundo das costas da vida,
por onde se espraia o mar alto!
Não dançam à tua volta
as borboletas de mil cores
dos meus sonhos?
Não é este eco das minhas escuras cavernas
o eco das tuas canções?

Quem melhor do que Tu
poderá ouvir este cacho das horas
que hoje palpita nas minhas veias;
estes pés alegres
que bailam no meu coração,
este clamor de vida
que bate as asas inquietas
no meu corpo?

(1861-1941)

quinta-feira, 19 de março de 2009

Ser pai, como arco para as flechas

Escultura:
Susan Lordi










- Os vossos filhos não são vossos filhos:
são filhos e filhas
do chamamento da própria Vida.


Vêm por vosso meio
mas não de vós;
e apesar de estarem convosco,
não vos pertencem.

Podeis dar-lhes o vosso amor;
mas não os vossos pensamentos:
porque eles tem pensamentos próprios.

Podeis acolher os seus corpos;
mas não as suas almas:
porque as suas almas
habitam a casa de amanhã
que não podeis visitar,
nem sequer em sonhos.

Podeis esforçar-vos por ser como eles;
mas não tenteis fazê-los como vós.
Porque a vida não vai para trás,
nem se detem com o ontem.

Sois os arcos, e os vossos filhos
as setas vivas projectadas.
O Arqueiro vê o alvo no caminho do infinito,
e reteza-vos com o seu poder
para que as setas
possam voar depressa para longe.

Que a vossa tensão na mão do Arqueiro
seja de alegria.

Porque assim como Ele gosta
da seta que voa,
também gosta do arco que fica.


In "O Profeta"
(1883-1931)

quarta-feira, 18 de março de 2009

Se

Pintura: Stephen Guyatt - If
Se és capaz de manter o sangue-frio
enquanto outros à tua volta o estão perdendo
e deitando-se as culpas;

Se és capaz de fiar-te em ti próprio
quando todos duvidam de ti
- e no entanto perdoares que duvidem;

Se és capaz de esperar sem cansar a esperança,
e de não caluniar os que te caluniam,
e de não pagar ódio por ódio
- tudo isto sem dar-te ares de modelo dos bons;

Se és capaz de sonhar
sem que o sonho te domine,
e de pensar, sem reduzir o pensamento a vício;

Se és capaz de afrontar o Triunfo e o Desastre
sem fazer distinção entre estes dois impostores;

Se és capaz de sofrer que o ideal que sonhaste
o transformem canalhas em ratoeiras de tolos;
ou de ver destruído o ideal da vida inteira
e construí-lo outra vez com ferramentas gastas;

Se és capaz de fazer do que tens um montinho
e de tudo arriscar numa carta ou num dado,
e perder, e começar de novo o teu caminho,
sem que te oiça um suspiro quem seguir a teu lado;

Se és capaz de apelar para músculo e nervo
e fazê-los servir, se já quase não servem,
aguentando-te assim quando nada em ti resta,
a não ser a Vontade, que te diz: aguenta!

Se és capaz de aproximar-te do povo e ficar digno,
ou de passear com reis conservando-te humilde;

Se não pode abalar-te o amigo ou inimigo;
se todos contam contigo e não erram as contas;
se és capaz de preencher o minuto que foge
com sessenta segundos de tarefa acertada;

Se assim fores, meu filho, a Terra será tua,
será teu tudo o que nela existe,
e não receies que to tomem...

Mas (ainda melhor que tudo isto)
se assim fores, serás um homem!
(1865-1936)
(Tradução de Agostinho de Campos)

sábado, 14 de março de 2009

Todos somos responsáveis

Dei uma volta lá fora. Curta volta, mas uma volta. É interessante o exercício de ver os outros e colocarmo-nos no lugar deles. Porque é que aquele bebeu demasiado? Porque acelera o outro, roncando, querendo chamar a atenção de todos? Está ali um casal de costas voltadas, que terá quebrado o seu diálogo? Um grupo de adolescentes circula como quem está pronto para pontapear mais uma paragem de autocarro; que revolta vai no seu coração para assim se quererem vingar? Bom, já chega!
E regressei, voltei para dentro, para dentro de mim. Veio à minha memória a forte e gritante frase de João XXIII: "Somos responsáveis por todos os homens".
Tudo o que se passa no mundo, tudo o que afecta a vida de um homem ou de uma mulher, nos diz respeito.
Podemos nós ficar calados diante das escolhas erradas que o mundo faz?
Já não há em nós uma consciência crítica sobre o que nos rodeia?
O nosso silêncio não nos tornará cúmplices daqueles que destroem o mundo e que condenam ao sofrimento e à miséria tantos homens e mulheres?
Poderemos acomodar-nos no nosso cantinho, demitindo-nos das nossas responsabilidades?
Às vezes não apetece mesmo ir lá fora... mas ainda que fosse para o deserto, continuaria co-responsável pela humanidade a que pertenço: maior seria a irresponsabilidade, fugir à responsabilidade!
"Cada um é responsável por todos. Cada um é o único responsável. Cada um é o único responsável por todos." (Antoine de Saint-Exupéry)

terça-feira, 10 de março de 2009

Do outro lado de mim

Roseanne Backstedt: Intense Departure














Não é a vida que se não viveu o que desgosta;
Não são as horas perdidas à espera doutras o que faz falta;
Nem os sonhos que a realidade não compensou
O que pesa na balança da existência.
Quando o mar é manso e igual
Nem se sente o alvoroço da chegada.
O porto está além mas nada significa além do desembarque.
A chegada é coisa vazia com sabor a frustrada despedida.
O que interessa na vida é a bagagem dela nos nossos sonhos
de futuro.
]
Será o que para além a aventura queimará, alimentada
Por pedaços de nós que o vento arranca.


O que interessa não é a paz de ter chegado.
O que é grande e belo, é isto de chegar
E ter logo e sempre a coragem de partir.


Marcos Leal
(1928-2004)
(pseudónimo de Rodrigo Leal Rodrigues)

domingo, 8 de março de 2009

Dia Internacional da Mulher

"Todos nós – homens e mulheres, militares e soldados, cidadãos e dirigentes – temos a responsabilidade de contribuir para pôr fim à violência contra mulheres. Os estados têm de honrar os seus compromissos para prevenir a violência, trazer culpados à justiça e fornecer apoio às vítimas. E cada um de nós deve falar em nossas famílias, locais de trabalho e comunidades, para que cessem os actos de violência contra as mulheres."
Secretário Geral da ONU, Ban Ki-moon

A ONU dedica a este dia um site especial:
http://www.un.org/events/women/iwd/2009/

quarta-feira, 4 de março de 2009

Haydn

Franz Joseph Haydn (1732-1809), um dos mais importantes compositores do período clássico, juntamente com Mozart e Beethoven. Assinala-se este ano a efeméride dos 200 anos da sua morte.
Foi justamente a música deste compositor que me despertou o gosto pela música clássica, ainda na minha pré-adolescência. Estavam lá por casa alguns discos do meu pai que eu, de vez em quando, espreitava com curiosidade. Um deles passou várias vezes pela minha mão, a capa fascinava-me! Mas um dia atrevi-me a ouvi-lo. Ah, o fascínio agora era outro! Tratava-se das Sinfonias Nº 6 "Le Matin", Nº 7 "Le Midi" e Nº 8 "Le Soir". De aparente simplicidade e de fácil audição, primam pela elegância e pelo bom gosto do estilo de composição do jovem Haydn.
Foi precisamente esta facilidade de audição que me fez pegar na Flauta de Bisel e tentar reproduzir o que ouvia, as belas linhas melódicas apresentadas nestas sinfonias que são quase concertone (sinfonias concertantes, em estilo de concerto para instrumento e orquestra).
E assim, auditivamente, aprendi o carácter de um Minueto, o que era Adagio, Allegro, etc.
Cada audição era uma autêntica lição de música!
Aqui deixo as ligações ao YouTube da Sinfonia Nº 6 "Le Matin", muito bem interpretadas pela Freiburger Barockorchester com instrumentos da época:

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Cinzas

Muitas vezes os nossos corações estão duros e fechados. Somos insensíveis aos outros. Estamos cinzentos e sujos como as cinzas.
Muitas vezes o nosso olhar julga os outros, desaprova-os, lança-lhes olhares cinzentos e sujos como as cinzas.
Muitas vezes não nos apetece avançar. Ficamos no mesmo sítio. Somos vencidos pela preguiça. Ficamos atolados nas cinzas cinzentas e sujas.*


Acordai, uma voz nos chama!
(Wachet auf, ruft uns die Stimme)
J. S. Bach, BWV 645 (No Órgão, Ton Koopman)



*Uma reflexão sobre a Quarta-feira de Cinzas, baseada num texto de rAP, que inspirou a colocação aqui desta obra musical.