sábado, 10 de abril de 2010

Monólogo da oliveira

Gogo Korogiannou: Olive Tree
















Sobrevivo com uma pinga de água.
Um olhar de quem passa dá e sobra

muitos meses, um sorriso me basta
para reverdecer por longos anos

- a minha copa foi feita de sonho
e de coisas exactas e tão negras

como pequeno bago de azeitona.
Sinais minúsculos e trespassados

de luz na cerração densa da morte.
Vi romanos, e moiros, e judeus:

o par de mansos olhos do Cordeiro
no meu tronco perdura até ao fim.
José António Almeida

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Ainda não é tarde



Ainda não é tarde, dizem os amigos
aos quarenta anos. Amam as canções
e as cidades estranhas que o desejo
guarda: a pressa de Junho nas escadas
do metro e essa livraria à beira do rio –
só a descobrimos no último dia, a pena

que foi
. No fim da estação regressam
iguais com histórias diferentes, gratos
souvenirs. Ainda não é tarde, nada
está perdido (e ninguém lhes dá
a idade que têm). Aos quarenta anos
não sabem dizer o que aconteceu,

mas quando se juntam à roda da mesa
na vaga euforia que a hora consente,
já quase acreditam que podem voltar
à pequena praça, à luz entrevista de um
quarto de hotel, onde a noite é nova
e toda a beleza se há-de cumprir

Rui Pires Cabral
in Oráculos de cabeceira

Rui Pires Cabral nasceu em Outubro de 1967 em Macedo de Cavaleiros. Licenciou-se em História-Arqueologia em 1990. Publicou em 1985 um livro de contos mas foi através da poesia que a sua escrita atingiu um assinalável grau de maturidade. A toada mais abstracta do seu primeiro livro deu lugar nos mais recentes, a uma poesia metonímica e figurativa quantas vezes surpreendente, onde as viagens, as cidades e a música são pretexto para uma escrita prosódica muito nítida. Rui Pires Cabral não esconde um gosto por um presente concreto no que de episódico e narrativo possa ter, e onde o mais pequeno acontecimento ou cena citadina serve para dele extrair um poema.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

O que estou a ouvir

La Barcha d'Amore é uma compilação de gravações feitas por Jordi Savall, Montserrat Figueras e habituais colaboradores, entre 1976 e 2008, com obras compostas entre 1563 e 1685. Geralmente as compilações tiradas de várias gravações feitas em locais diferentes e durante muitos anos, são muitas vezes desconexas e sonoramente incoerentes, mas neste caso tal facto não desfavorece. A música é estilisticamente compatível e estes artistas são tão consistentes na qualidade, no cuidado e na vitalidade de suas performances, que pouco importa mais ou menos 30 anos!
Um CD delicioso, como o amor como tema de fundo, e onde sobressaem belos temas cantados por Montserrat Figueras.
Podem ouvir-se excertos AQUI.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Bach Segóvia Guitarra



A música do ser
Povoa este deserto
Com sua guitarra
Ou com harpas de areia

Palavras silabadas
Vêm uma a uma
Na voz da guitarra

A música do ser
Interior ao silêncio
Cria seu próprio tempo
Que me dá morada

Palavras silabadas
Unidas uma a uma
Às paredes da casa

Por companheira tenho
A voz da guitarra

E no silêncio ouvinte
O canto me reúne
De muito longe venho
Pelo canto chamada

E agora de mim
Não me separa nada
Quando oiço cantar
A música do ser
Nostalgia ordenada
Num silêncio de areia
Que não foi pisada

domingo, 4 de abril de 2010

Et Resurrexit

Aqui desejo a todos os meus leitores e amigos uma boa Páscoa, que para os crentes a desejo santa. Agradeço a todos os que me enviaram idênticos votos.

Da Missa em Si Menor, BWV 232, de Johann Sebastian Bach: Et Resurrexit,
La Chapelle Royale e Collegium Vocale Gent dirigidos por Philippe Herreweghe.

sábado, 3 de abril de 2010

O Salutaris Hostia

Para este Sábado que se deseja tranquilo, sugiro um tema que junta o saxofone de Jan Garbarek às vozes renascentistas dos The Hilliard Ensemble: O Salutaris Hostia [Pierre de la Rue (1452—1518)]

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Stabat Mater

Stabat Mater (versão composta por Pergolesi), um tema para esta Sexta-feira... Santa, para quem assim o entender.

Les Talens Lyriques; Direcção, Christophe Rousset

Sabina Puertolas, soprano; Vivica Genaux, mezzosoprano

quarta-feira, 31 de março de 2010

Geologia

Kirstie Cohen: Ice Mountain

Andamos horrorizados com as notícias. Corrupção, pedofilia, terrorismo...
Serenamente aceitamos as dificuldades que a natureza nos traz... mais difícil é aceitar o que de mau vem do coração do homem. Gente de bem, protegem-se uns aos outros... mas um dia o chão pode virar.

José Rui

GEOLOGIA

Às vezes são homens de bem
empurrados para esta vida,
resquícios de erosão da montanha,
paisagens antigas
enterradas sob o gelo.

Nada está garantido
numa geologia tão frágil. Este chão
pode virar-se sem aviso.
Ainda assim, sejam bem-vindos,
fiquem tristes à vontade.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Hormona, meu amor

Através de uma amiga no Facebook, tomei conhecimento de um artigo publicado no caderno de ciência do Diário de Notícias. Já tem algum tempo, mas não passou a sua validade e interesse:


O amor, hormona a hormona
por S.G.09 Fevereiro 2009

«As formas de aproximação dos indivíduos variam consoante a produção de hormonas: do impulso sexual ao amor companheiro, descubra as hormonas na origem de cada fase na relação de um casal.
"Para a satisfação do impulso sexual qualquer coisa serve", considera António Santinho Martins, endocrinologista e sexólogo. Quando se procura apenas a satisfação física, é a hora da testosterona, tanto para os homens como para as mulheres. Se, por um lado, um alto nível desta hormona parece contribuir para a predisposição sexual, depois da excitação também ajuda a preparar o corpo para a relação sexual.
Porém, o prazer que se retira de um simples impulso sexual pode resultar numa maior aproximação do casal, numa paixão a que os especialistas chamam "amor romântico". Este tipo de amor é marcado por emoções intensas, rápidas mudanças de humor e erotismo. "No amor romântico há uma fase de monomania, de obsessão pelo namorado", refere Santinho Martins.
No entanto, o sexólogo confirma que esta paixão ardente também pode ser perigosa se demorar muito tempo: "Há um grande desgaste energético. Começa-se a afastar dos amigos, da família, dos deveres familiares." E a culpa é de três neurotransmissores: o aumento de dopamina e noradernalina proporcionam energia e boa disposição. Já a diminuição da serotonina parece contribuir para o sentimento de obsessão pelo outro.
Catarina Soares, psicóloga clínica, considera que esta fase de paixão "terá a função de juntar pessoas, mas tem de ser breve devido à sua intensidade". Chegará então a altura de pôr fim à paixão. Ou porque as pessoas percebem que "não são capazes de viver juntas" ou porque se passa à fase do "amor companheiro", entende Catarina Soares. O amor companheiro é construído pelo afecto de duas pessoas que vêem as suas vidas ligadas, como é o caso de casais que estão junto há muito. Duas hormonas fomentam esta fase de vínculo. A ocitocina, chamada "hormona do amor", tem a faculdade de ligar as pessoas e de suscitar prazer. Já a vasopressina é uma promotora de fidelidade


Apetece perguntar: Iremos um dia tratar o amor com comprimidos?

domingo, 28 de março de 2010

Também este crepúsculo

Beethoven: Romance para Violino e Orquestra Nº 2 (Ann Fontanella, Violino)


Também este crepúsculo nós perdemos.
Ninguém nos viu hoje à tarde de mãos dadas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.

Olhei da minha janela
a festa do poente nas encostas ao longe.

Às vezes como uma moeda
acendia-se um pedaço de sol nas minhas mãos.

Eu recordava-te com a alma apertada
por essa tristeza que só tu me conheces.

Onde estavas então?
Entre que gente?
Dizendo que palavras?
E porque vem até mim todo o amor de repente
quando me sinto triste, e te sinto tão longe?


Caiu o livro que sempre escolhíamos ao crepúsculo
e como um cão ferido rolou a meus pés minha capa.

Sempre, sempre te afastas pela tarde
para onde o crepúsculo corre apagando as estátuas.


Pablo Neruda (1904-1973)
in Vinte poemas de amor e uma canção desesperada