quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O que estou a ouvir

Há um instrumento que tem o condão de me transmitir ora tranquilidade, ora fulgor, com uma sonoridade sedosa e aconchegante. Trata-se da Viola da Gamba. Para falar deste instrumento sem entrar no capítulo da organologia, nada melhor que ouvir as explicações de Jordi Savall, um dos grandes intérpretes e investigador da Viola da Gamba.
Entretanto sugiro uma espreitadela no Filme "Todas as manhãs do mundo", onde se fala da vida de grandes músicos e compositores deste instrumento, AQUI a música no filme, AQUI por quem a tocou na realidade (Jordi Savall, claro! Ainda dedicarei um artigo a este grande músico).
E por fim o CD: "La Folia, 1490-1701"(La Folia é um tema musical português, utilizado exaustivamente para variações por dezenas de compositores, em vários séculos). É possível ouvir alguns excertos AQUI (encontra-se à venda na FNAC por um preço inferior ao apresentado nesse site).

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

E por vezes

Por vezes perdemos a noção do tempo, e tantas vezes não temos a noção do valor de um segundo. Na mensagem anterior sugeri parar para uma música, nesta faço-o para um poema.



E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Tranquilidade

Parar um pouco. Desligar em algum momento do dia. Nem que seja por breves instantes.
Desligar os problemas, o trabalho, os gostos ou desgostos.
Desligar dá saúde, renova a energia.
Convencido? Agora oiça este belo tema de John Dowland (Lachrimae Antiquae), antes de voltar a ligar:

Intérpretes: Jordi Savall · Hespérion XX



Noutra paragem, também pode ouvir a versão cantada:
Flow my tears (Lachrimae)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Days of wine and roses

Famoso e belo tema que se tornou num standard do Jazz (aqueles temas que servem de base para a improvisação, que no seu conjunto formam o Real Book). Pois ouvia eu "Days of wine and roses", e perguntei-me de onde vinha esse título. Ah, afinal existe o filme (1962, Blake Edwards, com Jack Lemmon) e existe o tema musical desse filme (Henry Mancini and Johnny Mercer). Mas este título vem de um belo poema de Ernest Dowson:

They are not long, the weeping and the laughter,
Love and desire and hate:
I think they have no portion in us after
We pass the gate.

They are not long, the days of wine and roses:
Out of a misty dream
Our path emerges for a while, then closes
Within a dream.

Não são duradouros, o choro e o riso,
Amor desejo e ódio:
Penso que não fazem parte de nós depois
Que passamos o portão.

Não são duradouros, os dias do vinho e das rosas:
Saído de um sonho enevoado
O nosso caminho emerge por algum tempo, fechando-se depois
Dentro de um sonho.

(tradução de Cecília Rego Pinheiro)

domingo, 19 de outubro de 2008

Pensar

"O bafo de todas as coisas faz cantar, como flautas, os meus pensamentos" (Rabindranath Tagore). Assim acontece comigo, sou um pensador permanente, sem qualquer pretensão quanto à maior ou menor grandeza e validade desses pensamentos. Nunca fico indiferente ao bafo de tudo o que me rodeia: mesmo que haja ruído à minha volta, faço silêncio dentro de mim... e penso.
"A ESCRITA é a minha primeira morada de silêncio", diz o nosso grande poeta Al Berto. Para mim é a segunda: talvez por não ser escritor, primeiro vêm sempre longos momentos a pensar. Depois, como se tocasse Flauta, procuro neles alguma musicalidade e aqui os escrevo, na esperança de que outros pensamentos completem o meu e assim formem outro... mais profundo, mais completo.

sábado, 18 de outubro de 2008

Um vinho

Vários amigos pediram-me que indicasse mais sugestões de vinhos, principalmente os que apresentem uma boa relação qualidade/preço. Vou procurar fazê-lo então com maior regularidade.
Sendo assim, para alegrar o fim-de-semana:
Domingos Damasceno de Carvalho 2005 (por volta de 8 Eur. nos supermercados)
Como diz a LusaWines, Domingos Damasceno de Carvalho representa a terceira geração de uma família de viticultores que, há mais de 150 anos, produz vinho no Poceirão. Hoje são os netos que tratam deste "bem". Vinho com aroma a frutos pretos maduros, (amoras e ameixas), bem casado com a madeira. No paladar é macio e arredondado, com estrutura equilibrada e elegante. Suave, agradável e persistente. Com carácter e forte personalidade. Acompanha, no prato, javali, borrego e cabrito. Queijos de cabra ou ovelha de Azeitão ou Seia. Medalha de Ouro, V Concurso, CVR - Peninsula de Setúbal 2004. Enólogos Nuno Cancela de Abreu e Hélio Plácido Rodrigues.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Nunca é tarde demais

Caminhar faz-se caminhando, viver faz-se vivendo. Vivendo activamente.
Fiquei a pensar nisto depois de ver o filme "Nunca é tarde demais" ("The Bucket List"), no qual contracenam Jack Nicholson e Morgan Freeman. Só quase no fim da vida é que viram o que ainda lhes faltava fazer, mas fizeram-o. Esta é uma das mensagens do filme. Outra delas é a relatividade das coisas, à medida que passa o tempo da nossa vida. Pequenos gestos que se podem tornar grandes, ficam tantas vezes adiados até um dia, ou até nunca.
Há ainda outra importante mensagem neste grande filme: cada vez que alguém cruza a sua vida com a nossa, dêmos importância a esse facto. Nunca sabemos que importância essa pessoa poderá vir a ter para nós ou nós para ela. Como cristão direi até: nunca sabemos porque Deus a colocou no nosso caminho. Vale a pena procurar descobrir. A isto eu chamo viver activamente, não ficar passivamente à espera de ver o que acontece. Foi assim na tela e é assim na vida.
Este filme, de 2007, está agora à venda em DVD e vale muito a pena ver ou rever.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Disco

Sou do tempo em que as discotecas estavam na moda. Sexta-feira à noite, Sábado à tarde (sim, tínhamos "febres de Sábado à tarde") ou à noite (depois das 10.00 h já se dançava), lá estávamos caídos. Todos nos conhecíamos, eram verdadeiros momentos de convívio. Não era só "abanar o capacete".
Alguns traziam do estrangeiro os LPs que só mais tarde chegariam a Portugal. Foi aí que ouvi pela 1ª vez os Dire Straits, os Buggles, e em pt, os Street Kids, Jáfumega, Rui Veloso... era fabuloso. Havia uma cultura Pop-Rock que se vivia (convivia) saudavelmente, através da dança. Chegámos a fazer a nossa própria discoteca no anexo da casa de um conhecido médico de Bragança, que às vezes nos interrompia porque estava a operar! E tal era a quantidade de novidades musicais, que chegámos a fazer concorrência às duas discotecas públicas. A certa altura convidaram-nos a levar os discos para uma delas, oferecendo-nos entrada livre e direito a uma bebida!

Mas não era só isto que se fazia numa fria terra do norte de Portugal. Foi aí que fiz cursos de Canoagem, Alpinismo, Aeromodelismo, Animação Musical. Foi aí que, como animador cultural, andei pelas aldeias (juntamente com grandes amigos, agora também leitores deste blogue) tocando, fazendo de palhaço, fazendo teatro, fantoches, projectando cinema, levando alegria a um povo que sempre nos acolhia de braços abertos (e adegas... e fumeiros!), procurando partilhar connosco tanto quanto partilhávamos com ele. Eram assim umas "discotecas" tradicionais onde em vez de bolas de cristal havia salpicões e alheiras pendurados, e as luzes vinham do crepitar de uma enorme lareira. Boas, as discotecas em Bragança!
Sobre os quatro anos da minha adolescência que ali passei ainda terei muito para contar em futuras mensagens.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Um livro e um poema

Depois de um Verão pleno de poesia, tinha eu 18 anos, apresentaram-me um poeta: Pablo Neruda. Falecera há dez anos. Leram-me em castelhano um dos poemas do seu livro Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada. Fiquei com ele escrito numa folha de papel de carta.
Mais tarde comprei o livro. Escrevi assim na primeira página:

"Se eu não fosse músico era poeta.
Se fosse poeta gostaria de cantar o amor como ele."

Hoje é ainda um livro de onde por vezes tomo um poema, talvez como quem toma uma café para lhe aquecer a alma. Ou para que melhor circule o sangue na "veia artística".
Livro belo. A Net está inundada de poemas seus, mas este é um daqueles livros que é bom sentir. Poemas tão belos, não elegerei um favorito. Mas transcrevo aqui um:

Para o meu coração basta o teu peito
para a tua liberdade as minhas asas.
De minha boca chegará até ao céu
o que adormecido estava na tua alma.

Tu trazes a ilusão de cada dia.
Chegas como o orvalho nas corolas.
Com tua ausência escavas o horizonte.
Eternamente em fuga com a onda.

Eu disse que no vento ias cantando
como os pinheiros e como os mastros.
Como eles tu és alta e taciturna.
E logo entristeces, como uma viagem.

Acolhedora como um velho caminho.
Povoam-te ecos e vozes nostálgicas.
Eu despertei e às vezes emigram e fogem
pássaros que dormiam na tua alma.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

A Net

Alguns dizem que a Net isola as pessoas, outros dizem que as aproxima. EU CONTO a minha opinião: acho que a Net afasta efectivamente de algumas coisas e aproxima de outras. Pela minha experiência pessoal, vejo menos televisão, ou seja, só vejo na televisão o que me interessa. Tenho encontrado na Net um meio de estar informado sobre o que há de novo na arte, na cultura, na tecnologia, no mundo. Na Net, tal como na televisão comecei a filtrar o que realmente me interessa, deixei de "navegar" ao sabor das ondas, como aconteceu na fase inicial. Através do correio electrónico mantenho um contacto mais próximo com a família, com os amigos, com os colegas e com os alunos (para lá das facilidades que proporciona como ferramenta de trabalho).
Usando o Myspace, blogues e os meus sites, tenho marcado presença num espaço ainda por conquistar. Falando mais particularmente deste blogue, acabou por fazer com me contactassem muito mais. E não só por mail, mesmo pessoalmente. Tem sido vulgar cruzar-me com um colega e ele dizer-me uma opinião sobre um CD, sobre um livro, sobre uma reflexão. Ainda hoje, já no exterior da escola, estávamos três colegas a opinar sobre vinhos!
É curioso que comecei a ter alguns leitores assíduos, e não apenas os que o fazem de passagem. Isto entusiasma-me ainda mais a continuar a escrever. E por que o faço? Porque tantas vezes venho no carro a pensar sobre diversos assuntos (às vezes até na sala, ou já na cama) e chego a conclusões que acho que não devo guardar só para mim. Da mesma forma que um vinho tem mais sabor quando é partilhado, ou se vibra mais com uma música quando se ouve com alguém que comunga (ou procuramos fazer comungar) dos nossos gostos, também o mesmo acontece com as ideias.
O meu único lamento é que por vezes me fazem observações tão interessantes, que deveriam estar aqui nos comentários e assim serem partilhadas com todos os que aqui vêm. Vou começar a dizer: "interessante o que disseste, escreve-o no meu blogue, há outros que gostarão de o ler". Como costumo dizer, EU CONTO, contem vocês também.