quinta-feira, 21 de abril de 2011

Os problemas materiais não afectam a composição da obra



Há uma passagem do 1º concerto de brandeburgo
de joão sebastião bach em que o ritmo se torna
melancólico, como se o compositor quisesse
fazer uma pausa naquilo que, aparentemente,
descrevia a alegria e a festa de uma corte. Mas
nesse adagio, é como se bach obrigasse
quem o ouvia a fazer uma paragem; e, de
súbito, uma desolação entra na música, sem
destruir a sua perfeição, tal como o outono
também pode trazer uma outra beleza aos
campos, quando o céu se cobre de nuvens
e as folhas adquirem uma tonalidade ruiva,
anunciando o inverno. Porém, esta mudança
não dura muito tempo; e logo a paisagem
retoma a sua vida, através do allegro em
que ressoa um esplendor de grandes salas
iluminadas. A música limita-se a reflectir
os sentimentos do homem; e se o compositor
se demora na tristeza, é porque ela é necessária
para vencer o desânimo da alma. Mas nem todos
o compreendem; e o certo é que o príncipe
de brandeburgo não lhe pagou a encomenda.

in Guia de Conceitos Básicos

sábado, 16 de abril de 2011

Minha alma é uma orquestra




Minha alma é uma orquestra oculta;
não sei que instrumentos tange e range,
cordas e harpas, tímbales e tambores, dentro de mim.
Só me conheço como sinfonia.

Fernando Pessoa
Livro do Desassossego

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Novo ano, de novo...















Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.


E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

in Diário XII

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Utilidade



















Só as mãos que se estendem para a frente interessam.

Só os olhos que vêem para além do que se vê,
só o que vai para o que vem depois,
só o sacrifício por uma realidade que ainda não existe,
só o amor por qualquer coisa que ainda não se vê e ainda,
nem nunca, será nossa
interessa.
Lisboa, 1916-1995

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

João Lourenço Rebelo

Do blogue A Outra Margem destaco uma notícia:

Em 2010, passam quatrocentos anos do nascimento de João Lourenço Rebelo, um dos mais importantes compositores portugueses seiscentistas. Amigo e protegido do rei D. João IV, que lhe fez publicar grande parte da obra por um editor de Roma, deixou um corpus de música sacra que prenuncia já o barroco e que impressiona pelas suas características únicas, que o distinguem dos outros polifonistas portugueses e do resto da Europa. Uma música de tocante beleza mas desconhecida da maioria das pessoas, até mesmo do meio musical. Nesta efeméride, quase não se tem ouvido a obra de Rebelo e uma das excepções é o concerto marcado para 5 de Dezembro, às 16h, na Igreja Matriz de Oeiras, pelos agrupamentos Capela Joanina e Flores de Música. O seu director artístico, João Paulo Janeiro, que tomou Rebelo como objecto da sua tese de doutoramento, inicia-nos na obra do compositor, sobre quem registamos também o depoimento de Paul van Nevel, director artístico do Huelgas Ensemble, que gravou o único CD monográfico de Rebelo.
Para ouivr em A Outra Margem, esta 4ª feira, às 18h05, em 90.4 fm ou em http://www.radioeuropa.fm/, e a partir de 5ª feira em podcast.

(agradeço à Manuela Paraíso a divulgação desta efeméride e do concerto referido)

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

À beira de água

















Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.
in Os Sulcos da Sede

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Escapade

Ian Davie: Intimate moments


















Esta manhã viu-se tão bela no

seu próprio espelho que veio
urgente descerrar-me a janela
e a todos os pássaros do mundo.
(1921-1999)

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Corpo de esperança















Trago-te na minha vida como quem
escuta os passos musicais do tempo,
como as manhãs tocam a paisagem...

e amplamente te recebo dos horizontes da dor
que é a nossa distância de seres quase tudo.

Trago-te na minha vida como é possível
a noite trazer o luar.


(1927-1975)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Sigo o voo dos pássaros

Octavio Ocampo: Family of Birds





















Sigo
o voo dos pássaros
e parto com eles.
Abrindo asas à vida
deixo sempre uma pena
no lugar
que abandono
para marcar o regresso.
Nos olhos
levo luas
e mensagens de sol;
no sorriso
aragens de nordeste
e aroma de flores;
nos braços
porém
o branco do adeus
rubro de saudade
e a vontade
indómita
do beijo
que a boca não teve.


Recebi de Maria Mamede, poetisa e amiga tantas vezes presente neste espaço, o poema que hoje aqui partilho. Veio até mim porque, assim ela me conta, tem algo a ver com o pensamento do meu amigo Óscar Possacos, essa frase, quase um lema, para tantas ocasiões da minha vida: "Volta sempre com um pássaro no rosto e deixa sempre uma pena como quem não quer ir embora".  Este pensamento já outrora lhe havia inspirado um poema que pode ser lido na mensagem "Volta sempre!".
Muito agradeço a Maria Mamede o carinho, a atenção, a amizade, e todos os poemas que me tem dado a conhecer. É um enorme gosto apresentar aqui alguns deles em primeira mão.