quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Um livro e um poema

Depois de um Verão pleno de poesia, tinha eu 18 anos, apresentaram-me um poeta: Pablo Neruda. Falecera há dez anos. Leram-me em castelhano um dos poemas do seu livro Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada. Fiquei com ele escrito numa folha de papel de carta.
Mais tarde comprei o livro. Escrevi assim na primeira página:

"Se eu não fosse músico era poeta.
Se fosse poeta gostaria de cantar o amor como ele."

Hoje é ainda um livro de onde por vezes tomo um poema, talvez como quem toma uma café para lhe aquecer a alma. Ou para que melhor circule o sangue na "veia artística".
Livro belo. A Net está inundada de poemas seus, mas este é um daqueles livros que é bom sentir. Poemas tão belos, não elegerei um favorito. Mas transcrevo aqui um:

Para o meu coração basta o teu peito
para a tua liberdade as minhas asas.
De minha boca chegará até ao céu
o que adormecido estava na tua alma.

Tu trazes a ilusão de cada dia.
Chegas como o orvalho nas corolas.
Com tua ausência escavas o horizonte.
Eternamente em fuga com a onda.

Eu disse que no vento ias cantando
como os pinheiros e como os mastros.
Como eles tu és alta e taciturna.
E logo entristeces, como uma viagem.

Acolhedora como um velho caminho.
Povoam-te ecos e vozes nostálgicas.
Eu despertei e às vezes emigram e fogem
pássaros que dormiam na tua alma.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

A Net

Alguns dizem que a Net isola as pessoas, outros dizem que as aproxima. EU CONTO a minha opinião: acho que a Net afasta efectivamente de algumas coisas e aproxima de outras. Pela minha experiência pessoal, vejo menos televisão, ou seja, só vejo na televisão o que me interessa. Tenho encontrado na Net um meio de estar informado sobre o que há de novo na arte, na cultura, na tecnologia, no mundo. Na Net, tal como na televisão comecei a filtrar o que realmente me interessa, deixei de "navegar" ao sabor das ondas, como aconteceu na fase inicial. Através do correio electrónico mantenho um contacto mais próximo com a família, com os amigos, com os colegas e com os alunos (para lá das facilidades que proporciona como ferramenta de trabalho).
Usando o Myspace, blogues e os meus sites, tenho marcado presença num espaço ainda por conquistar. Falando mais particularmente deste blogue, acabou por fazer com me contactassem muito mais. E não só por mail, mesmo pessoalmente. Tem sido vulgar cruzar-me com um colega e ele dizer-me uma opinião sobre um CD, sobre um livro, sobre uma reflexão. Ainda hoje, já no exterior da escola, estávamos três colegas a opinar sobre vinhos!
É curioso que comecei a ter alguns leitores assíduos, e não apenas os que o fazem de passagem. Isto entusiasma-me ainda mais a continuar a escrever. E por que o faço? Porque tantas vezes venho no carro a pensar sobre diversos assuntos (às vezes até na sala, ou já na cama) e chego a conclusões que acho que não devo guardar só para mim. Da mesma forma que um vinho tem mais sabor quando é partilhado, ou se vibra mais com uma música quando se ouve com alguém que comunga (ou procuramos fazer comungar) dos nossos gostos, também o mesmo acontece com as ideias.
O meu único lamento é que por vezes me fazem observações tão interessantes, que deveriam estar aqui nos comentários e assim serem partilhadas com todos os que aqui vêm. Vou começar a dizer: "interessante o que disseste, escreve-o no meu blogue, há outros que gostarão de o ler". Como costumo dizer, EU CONTO, contem vocês também.

O que estou a ouvir

Desde a sua redescoberta por volta de 1930, tornaram-se das obras mais gravadas de sempre: trata-se dos Concertos para Violino Op. 8, Nos. 1-4, de Vivaldi, mais conhecidos apenas por "As Quatro Estações". Tenho já diversas interpretações na minha colecção de CDs (e até em LP). As minhas referências têm sido a de Nils-Erik Sparf (BIS-CD-275), e a de Enrico Onofri (Teldec 97671). Eis que me deparo com uma nova gravação: a de Amandine Beyer (Zig Zag Territoires CD ZZT080803). "Bem, dificilmente acrescentará algo de novo ao que eu conheço desta obra", pensei eu. E não é que me surpreendeu! Primorosamente executada, com uma grande novidade nas articulações, uma bela conjugação de clareza e musicalidade. É absolutamente uma outra visão desta obra. Não hesito em colocar esta interpretação a par das melhores. Fiquei encantado!
O CD tem ainda dois concertos que nos chegam ao ouvido em estreia mundial. Fortemente recomendado.
Não deixem de visitar o site de Amandine Beyer se quiserem deliciar-se com outras belíssimas obras que ela nos dá a ouvir, bem como o site da quase desconhecida (mas magnífica!) etiqueta Zig Zag Territoires, onde encontrarão artistas de primeira linha e muitas gravações premiadas.

sábado, 11 de outubro de 2008

Corazón partío

Faz hoje uma semana que numa conversa entre amigos, num casamento, surgiu a interrogação: Porquê tantos divórcios? Fui pensando durante a semana.
Há imensas explicações de carácter sociológico, psicológico, etc. No entanto parece-me que o cerne reside aqui: o casal decide casar porque entre eles há amor, há uma complementaridade, há uma convergência no essencial, nos objectivos que desejam para a sua vida. Mas o dia a dia não é feito só de grandes coisas. A maior parte dos conflitos e divergências surge na dificuldade em gerir as pequenas coisas que fazem parte do todo da sua vida em comum. Assim se vai desgastando a relação matrimonial; o casal vai perdendo o seu horizonte, vai esquecendo o fundamental, aquilo que os uniu.
Como evitar? Estar alerta, prevenir acima de tudo. Nunca pensar que a conquista foi feita num momento: ela tem que ser continuada. Cada um ceder um pouco, nunca pensando que a razão está toda do seu lado. Dialogar: se o diálogo for cortado pode atingir-se o ponto sem retorno.
Sim, é preciso encontrar os pensos para curar esses corações partidos...! Isto faz-me lembrar a canção de Alejandro Sanz, "Tiritas pa este corazón partío", até a letra está muito engraçada! Se gostarem de Salsa, aproveitem para "temperar" a vossa relação (Sabor!).

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Jacinta... ou Jazzinta

Estava eu a arrumar alguns CDs de Jazz, e vem-me às mãos um CD "maqueta" que a Jacinta me tinha enviado dos Estados Unidos, para mostrar os trabalhos que estava a fazer na altura (2002). Dois anos antes, num jantar em casa de um amigo comum, já eu lhe tinha dito que não havia no Jazz português uma voz como a dela. Depois de ouvir a maqueta fiquei ainda mais com essa certeza: ela seria a nossa diva do Jazz. E é!
Tem sido interessante acompanhar todo o seu percurso (conhecemo-nos há 22 anos!) e não posso deixar de sentir orgulho no sucesso que vem conquistando, agora com três CDs gravados, a nossa artista da Blue Note!
Vale a pena visitar o seu site JACINTA JAZZ, o seu MySpace ou o Youtube. E depois, comprar os CDs!
Bons sucessos, amiga!

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Vinda do Céu, vindo da Céu

Um comentário à minha mensagem No meio do silêncio parece vindo do Céu... lembrou-me de como associamos os afectos ao que ouvimos, comemos, bebemos, aprendemos, vivemos.
Curiosamente, Isabel Stilwell referia isso ontem no seu programa Dias do Avesso, na Antena 1, que "a memória e a aprendizagem só se faz através dos afectos". Gostei de ouvir isso porque é o que tenho procurado fazer enquanto professor.
Voltando ao comentário à minha mensagem, é magnifico como anos mais tarde, reviver algo traz à memória os afectos. Não pude deixar de me recordar também das vindimas com os meus avós, do esmagar das uvas, do carinho que o meu avô punha na sua arte intuitiva e bela, do prazer que tinha em ter-me junto dele a fazer tudo isso. Nessa quinta, na encosta de um monte, em socalcos, havia videiras, árvores de fruto, aromáticos morangos selvagens, e o amor de quem cuidava com gosto do pouco de onde se fazia muito.
Depois de feito o vinho, e já no tempo mais frio das enormes geadas de Bragança, vinha a altura de fazer a aguardente. Lindo, aquele gota a gota que saía do alambique, e que de quando em quando se punha nos lábios para controlar o equilíbrio do aroma. A alguma dela era adicionada a chamada "ginja garrafal", para produzir a conhecida ginginha. Depois do S. Martinho lá se provava o vinho. Ah, mas tudo nascia das nossas mãos e isso dava-lhe outro sabor... sem dúvida que estou de acordo, estes produtos e o que a eles associamos têm 20 valores. Obrigado, Maria do Céu. Gostei muito do seu comentário e acho que outros que o leiam reviverão memórias de tempos passados mas com afectos sempre presentes.

O que estou a ouvir

Sempre fui apreciador da música para Órgão (de tubos). É um instrumento com uma sonoridade fascinante, capaz de produzir timbres delicados nos registos aflautados, ou surpreender-nos com o seu poder arrebatador no registo mais cheio, chamado Principal.
Oiço-o habitualmente na música barroca, onde consegue dar-me uma enorme sensação de elevação espiritual. Fiquei surpreendido ao ouvir música contemporânea para este instrumento, capaz de me proporcionar idêntica satisfação. Ouvi-a no CD "Cantus ad pacem", do compositor Peteris Vasks (Letónia), editado pela Wergo em 1 de Setembro. Conhecia outras obras deste compositor, mas não as suas obras para Órgão. Podem ouvir um minuto de cada faixa AQUI, mas tão curto tempo não dá para ter uma ideia de como se desenvolvem as peças. Recomendo que comecem por ouvir a faixa Nº 5: Te Deum. Ouvir isto num bom sistema de som (audiofilia, hei-de falar disso!) é de fazer levantar aqueles pelinhos da nuca! Comprem, ou venham ouvir comigo.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

No meio do silêncio

Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro as palavras por dizer.

Dizia Maria Guinot na sua canção Silêncio e Tanta Gente, e assim também acontece comigo: é no silêncio da noite que melhor oiço o que me vai na alma.

Então Eu conto algo sobre um tema de que ainda não falei, um dos meus grandes gostos: a enofilia. Defino-a como a arte de apreciar a enologia. Explico melhor: a enofilia é a apreciação dos vinhos, a enologia a ciência (e também arte) de produzir os vinhos.
Aprecio um vinho como uma obra de arte, tal como um pintura ou uma obra musical. Há tanta arte envolvida na sua produção! É pelo valor que lhe dou que não me importo de por vezes despender uma quantia considerável para conhecer alguns. E não se trata de beber, chamarei antes degustar: ver, cheirar e provar.
Neste momento, regressado de um ensaio, acompanha-me um Porto Cockburn's Tawny 20 anos (Director's Reserve), muito difícil de encontrar por aí, mas que há 5 anos repousava na minha cave com mais 2 irmãs (nunca vem só uma, depois é difícil voltar a arranjar!). É um deleite ir descobrindo nele os aromas a café, mel, caramelo, frutos secos, algumas notas de citrinos... e um final que parece não querer deixar-nos a boca. De 0 a 20? 19!

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Um livro

Há livros que ficam para toda a vida. "O Principezinho" de Antoine de Saint-Exupéry, vem à minha memória frequentemente. Há nele citações para quase todos os momentos da nossa vida.
Depois de uma recente conversa com uma também recente amiga, fiquei a pensar no que cada um de nós encerra em si. Há uma vida, um ser que não o é só naquele momento; tem toda uma história por trás que está oculta aos nosso olhos. É preocupante que lidemos, tantas vezes diariamente, com colegas, amigos, alunos, etc., sem procurar perceber quem temos diante de nós. Seremos mais humanos se pensarmos assim: uma coisa é ver alguém, outra coisa é sentir alguém. Sentir alguém é ver para lá do que os nossos olhos vêem! O Principezinho dá a receita: "Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...".
Depois vem o passo seguinte (é exactamente a frase seguinte no livro!), que tem a ver com o sair do nosso individualismo e dar ao outro o espaço e o tempo que merece, valorizando-o e fazendo-o sentir o valor que tem para nós: "Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante".

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Dia Internacional da Música

Anualmente, no dia 1 de Outubro, comemora-se o Dia Internacional da Música. Idealizado em 1975 pelo grande músico Yehudi Menuhin, pretende-se com ele:

  1. a promoção das artes musicais entre todos os sectores da sociedade;
  2. a aplicação dos ideiais UNESCO sobre: a paz e a amizade entre os povos, a evolução das suas culturas, do intercâmbio de experiências e da mútua apreciação dos seus valores estéticos;
  3. a promoção de actividades do Conselho de Música Internacional, das suas organizações internacionais e comités nacionais, tal como o seu programa estratégico em geral.

Mais detalhes no site da UNESCO.