domingo, 28 de março de 2010

Também este crepúsculo

Beethoven: Romance para Violino e Orquestra Nº 2 (Ann Fontanella, Violino)


Também este crepúsculo nós perdemos.
Ninguém nos viu hoje à tarde de mãos dadas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.

Olhei da minha janela
a festa do poente nas encostas ao longe.

Às vezes como uma moeda
acendia-se um pedaço de sol nas minhas mãos.

Eu recordava-te com a alma apertada
por essa tristeza que só tu me conheces.

Onde estavas então?
Entre que gente?
Dizendo que palavras?
E porque vem até mim todo o amor de repente
quando me sinto triste, e te sinto tão longe?


Caiu o livro que sempre escolhíamos ao crepúsculo
e como um cão ferido rolou a meus pés minha capa.

Sempre, sempre te afastas pela tarde
para onde o crepúsculo corre apagando as estátuas.


Pablo Neruda (1904-1973)
in Vinte poemas de amor e uma canção desesperada

4 comentários:

  1. Olá J.Rui
    Mais uma belo poema!
    Uma Santa Páscoa, para si, e para todos os que acompanham este blog.
    Vou até à nossa terra,matar saudades e comer folar,do bom.
    Um abraço
    esp

    ResponderEliminar
  2. Maravilhoso...

    Tem uma Santa e Feliz Páscoa.

    Beijo

    ResponderEliminar
  3. "Vinte poemas de amor e uma canção desesperada"
    Gosto muito.
    Onde estavas/estás...? No "além"..., não acredito no "além".
    (desabafo«zinho»)

    Abraço J. Rui e uma boa semana.

    ResponderEliminar
  4. muito bonito, zé rui.
    neruda e basta!

    abraço

    ResponderEliminar