domingo, 31 de janeiro de 2010

Cantata de aniversário

Sim, Bach tem uma cantata de aniversário! Assim é conhecida a Cantata BWV 208 "Was mir behagt, ist nur die muntre Jagd!" (O que me agrada é apenas a alegre caçada!), oferecida ao Duque Christian de Sachsen-Weissenfels, em 1713, por ocasião do seu aniversário.
Trata-se de uma das poucas cantatas seculares compostas por Bach. Uma das árias destaca-se pela sua grande beleza e serenidade - Schafe können sicher weiden (As ovelhas podem pastar seguras):


Interpretam em instrumentos da época Voices of Music:
Susanne Rydén, soprano; Hanneke van Proosdij e Louise Carslake, flauta de bisel; William Skeen, viola da gamba; Rodney Gehrke, órgão.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Soneto de aniversário

Delilah Smith: Birthday Cupcake No.4



















Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.

(1913-1980)

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Ao céu regresso

Steven Kenny: Constellation 3
Ao céu regresso.
Quero dizer
à terra anoitecida
pelo amor.
Extasio-me
com a terrestre vida dos astros.
Passeio
por uma estrada de estrelas.
Isto é
uma estrada de flores sublimadas
pela noite.
Vou visitar um estábulo
em pleno universo.
Zodíaco.
Jardim zoológico astral.
Lá estão as constelações
irradiando o seu frio.
Quero dizer
os animais pela memória
desterrados.
Regresso à noite.
Piso a escuridão.
Olho o céu
como se a terra visse.
As estrelas são flores.
As constelações são animais.
O céu é um jardim
com um estábulo no meio.
Comem flores os animais da terra.
Mastigam estrelas os do céu.
O céu também é um chão
mas um chão feito de memória.
Estão lá os mitos.
Isto é
homens elevados
pela luz e pela palavra.
Pisam-se lá em cima astros
como em baixo
se pisam pedras.
No céu passo por mitos
e por ideias.
Estão lá poemas.
Quero dizer
coisas metaforizadas
por esta outra noite do mundo
íntima e secreta
que são as palavras.

António Cândido Franco
in Estâncias Reunidas

António Cândido Franco, ensaísta, romancista e poeta, nasceu em 1956 em Lisboa. Professor da Universidade de Évora, conta com mais de trinta obras publicadas. Recebeu, em 1993, o prémio de ensaio da Associação Portuguesa de Escritores. Em 2002 reuniu a sua poesia em Estâncias Reunidas (1977-2002).

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

2010 Contra a Pobreza


"Apesar de a União Europeia ser uma das regiões mais ricas do mundo, 17% da sua população não tem os meios necessários para satisfazer as suas necessidades mais básicas.
A pobreza é normalmente associada aos países em vias de desenvolvimento nos quais a subnutrição, a fome e a falta de água limpa e potável são desafios quotidianos. Contudo, a Europa também é afectada pela pobreza e pela exclusão social, onde apesar de estes problemas poderem não ser tão gritantes, são ainda assim inaceitáveis. A pobreza e a exclusão de um indivíduo implicam o empobrecimento de toda a sociedade. A Europa só pode ser forte se utilizar ao máximo o potencial de cada um dos seus cidadãos.
Não há nenhuma solução milagrosa para acabar com a pobreza e com a exclusão social mas uma coisa é certa: não podemos vencer esta batalha sem si. É tempo de renovarmos o nosso compromisso para com a solidariedade, justiça social e maior inclusão. Chegou o momento do Ano Europeu Contra a Pobreza e a Exclusão Social.
Um valor fundamental da União Europeia é a solidariedade, particularmente importante em tempos de crise. A palavra “União” diz tudo – enfrentamos juntos a crise económica e é esta solidariedade que nos protege a todos.
Aqui ficam algumas das coisas que iremos fazer juntos:
Encorajar a participação e o compromisso político de todos os segmentos da sociedade para participarem na luta contra a pobreza e a exclusão social, desde o nível europeu ao nível local, no sector público e no privado;
Motivar todos os cidadãos europeus a participarem na luta contra a pobreza e a exclusão social;
Dar voz às preocupações e necessidades de todos quanto atravessam situações de pobreza e de exclusão social;
Dar a mão a organizações da sociedade civil e a ONG na área da luta contra a pobreza e a exclusão social;
Ajudar a derrubar os estereótipos e a estigmatização da pobreza e da exclusão social;
Fomentar uma sociedade que garanta a qualidade de vida, o bem-estar social e a igualdade de oportunidades para todos;
Reforçar a solidariedade entre gerações e garantir o desenvolvimento sustentável."

(Fonte: Comissão Europeia)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O que estou a ouvir

Verifiquei que foi muito apreciado o post Mareta nom faces plorar, não só pelos comentários que lá foram escritos, como por outros que me chegaram via e-mail. Resolvi então aqui destacar o CD de onde foi retirada essa canção, e que tenho estado a ouvir.
Ninna Nanna é um formidável conjunto de canções de embalar, abrangendo um período de mais de 500 anos. São 18 canções, em português, grego, latim, hebraico, catalão, inglês, e outras línguas, cada uma belíssima, cada uma cantada no seu próprio idioma. Algumas de autores anónimos, outras de compositores tão diferentes como Byrd, Mussorgsky, Milhaud, e Arvo Pärt.
O CD não deve ser escutado de uma só vez - mesmo sendo lindíssimas, são canções de embalar, e não vá o ouvinte adormecer - mas numas três vezes, para melhor apreciar o fascinante conteúdo de cada tema.
Montserrat Figueras consegue mover-se em terrenos do popular ao clássico, de uma mãe que zela pela segurança do filho ou de alguém que só quer embalar o seu bebé. A canção de embalar de autor anónimo grego (faixa 3), contém estranhas peculiaridades que só uma artista como Figueras poderia tão bem realizar.
Savall (seu marido) e Hespèrion XXI acompanham em diversificada instrumentação - flauta, harpa, violas, etc - com o pianista Paul Badura-Skoda a tocar em três das canções.
O CD é uma maravilhosa viagem pelo mundo da ternura maternal ao longo dos séculos, através das canções que a exprimem.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Fim e recomeço

Leslie Marcus: Lovers
























Não pode ser luar esta brancura

Nem aves batem asas sobre o leito
Neste quebrar de corpos fatigados
Será em mim o sangue que murmura
Em ti serão as luas do teu peito
Nos jogos do amor recomeçados

domingo, 17 de janeiro de 2010

Mareta nom faces plorar

Mareta, mareta, no'm faces plorar,
compra'm la nineta avui qu'es el meu sant.
Que tinga la nina hermosos els ulls,
la cara molt fina i els cabells molt rull.

Marieta, Marieta jo es cantaré
una cançoneta que ta adormiré.
Dorm-te, neneta, dorm si tens son.
Dorm-te, neneta, dorm si tens son


Mamã, querida mamã, não me faças chorar,
compra-me uma boneca, hoje que é o dia do meu santo
Que tenha a boneca uns olhos lindos,
um rosto bonito e cabelos muito encaracolados.

Maria, pequena Maria, eu irei cantar
uma canção para te embalar.
Dorme, pequena, dorme se tens sono.
Dorme, pequena, dorme se tens sono.

Uma canção de embalar de um anónimo do ano 1700 (Alicante, Espanha).
A interpretação é de Montserrat Figueras, conhecida nos círculos da música antiga como "a voz da emoção".
Acompanhamento instrumental por Hespèrion XXI (Jordi Savall).

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Contrato

Pierre Marcel: Royal Gala
Se estiveres contente, dou-te uma maçã;
se tiveres medo, torço a tua mão;
e se me deixares, quero apertar-te,
sem te fazer mal, contra o coração.

Se eu estiver contente, dás-me uma maçã?
Se eu estiver com medo, torce a minha mão.
E se tu quiseres, podes apertar-me,
sem me fazer mal, contra o coração.

Isto é um contrato, só com dois se faz:
venho oferecer-to com desesperada
calma, sendo incerto que estes nossos jogos
possam dos amantes expulsar demónios.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Yes

Yes - Marcaram definitivamente a minha adolescência musical, a forma como eu passei a ver o Rock. Afinal as fronteiras entre os estilos musicais não eram tão delimitadas. O Rock tinha elementos tão eruditos como a própria música erudita, particularmente o chamado Rock Sinfónico e o Rock Progressivo (conhecem os ELP?).
Mais tarde vim a pensar o mesmo do Jazz.
No fundo a música ou é boa ou não o é, qualquer que seja o estilo!
E desde que seja boa, eu gosto!

Este tema dos Yes, Soon, tocou-me (e toca-me) muito.
É um verdadeiro clássico!

Versão de 2002:



Versão de 1975:

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Tanto silêncio

Maxwell Hutchinson: Attributes I

Para cá de mim e para lá de mim, antes e depois.
E entre mim eu, isto é, palavras,
formas indecisas
procurando um eixo que
lhes dê peso, um sentido capaz de conter
a sua inocência
uma voz (uma palavra) a que se prender
antes de se despedaçarem
contra tanto silêncio.
São elas, as tuas palavras, quem diz «eu»;
se tiveres ouvidos suficientemente privados
podes escutar o seu coração
pulsando sob a palavra da tua existência,
entre o para cá de ti e o para lá de ti.
Tu és aquilo que as tuas palavras ouvem,
ouves o teu coração (as tuas palavras «o teu coração»)?

Manuel António Pina (1943)
in Os Livros

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Conselho

Maxwell Hutchinson: Strength, Love and Patience
Sê paciente;
espera que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

domingo, 10 de janeiro de 2010

O que estou a ouvir

Take Love Easy. Este título vem mesmo a propósito da mensagem anterior.
Mas agora falo do novo CD de Sophie Milman.
Muitos dirão desta bela cantora de 26 anos, "cá está outra menina bonita à procura da fama"... o certo é que já vai no seu 3º CD, e todos eles de elvada qualidade artística!
Em Take Love Easy encontraremos standards tradicionais do Jazz e ainda versões jazzísticas de temas de Joni Mitchell, Bruce Springsteen, Paul Simon e Tom Jobim. Como pode ouvir-se AQUI, os temas são abordados de uma forma soft-jazz, mas com interessantes arranjos instrumentais (está muito bem rodeada!) e interpretados com uma voz sofisticada, cheia de sex-appeal.
É uma das mais promissoras cantoras de Jazz da sua geração.
Um prazer em "ouver"!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A um ti que eu inventei

Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluír de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.

Um pesar grãos de nada em mínima balança,
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.

Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir,

Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesses partir.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Será Primavera?

"Palavras Gastas" e "Quem Sabe Amanhã Será Primavera", dois livros de Maria Mamede (este último em co-autoria com Albino Santos).
Dois livros que me acompanharam nesta manhã.
Belas palavras que nunca serão gastas porque só me provocam encanto!
Numa manhã fria em que nem as gaivotas quiseram andar no mar, li pássaros azuis, garças brancas, melros no escuro, e as andorinhas... trazendo a Primavera hoje mesmo.
Depois de todas estas festas, a manhã que poderia ser vazia encheu-se de um sossego onde me encontrei só eu e a poesia. E é claro que assim não foi uma manhã de solidão porque a passei a saborear poemas como se fossem "broa-doce", quase lhe sentindo o cheiro a pão cozido!...
Sairei daqui a pouco para a escola. Acho que hoje os alunos irão encontrar o professor mais inspirado...
Reparo agora que nas ladeiras que me separam do Tejo os automóveis parecem rebanhos a pastar... e o céu está mais azul!...

Um pequeno bando de garças brancas
acaba de chegar, ao terreno a nascente
que tinha sido lavrado há pouco;
Seu volátil bailado
ajuda-me a reencontrar
o caminho do sonho!... ___M.M.

Obrigado, Maria Mamede.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Cantata Viva


Faz hoje 15 anos que arrancou o Cantata Viva, o coro que dirijo.
Começou como um coral juvenil...
Hoje... somos todos ainda mais jovens! Haja espírito!

No IX Encontro de Coros, Silves (8/10/2008):

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Lhasa de Sela

Agradeço a Ana Mendes ter lembrado no comentário da mensagem anterior, esta cantora que aqui merece justa homenagem.

Lhasa de Sela, a cantora nómada, partiu. Em nova morada dará sua voz.
A cantora americano-mexicana que contava 37 anos, morreu na sexta-feira à noite em Montreal, no Canadá, onde vivia há vários anos.
Assim noticiou hoje o Público:

“Um cancro da mama que ela combateu com coragem e determinação durante mais de 21 meses finalmente levou-a”, anunciou Savoie através de um comunicado divulgado em nome de familiares e amigos da cantora. Lhasa de Sela morreu na sua casa em Montreal no dia 1 de Janeiro, pouco depois da meia-noite, precisa o mesmo texto. Nascida a 27 de Setembro de 1972, em Big Indian, a norte do estado de Nova Iorque, Lhasa absorveu várias culturas, fruto do espírito nómada com que vivia. Viajou durante vários anos com a família pelos Estados Unidos e México. Essa diversidade cultural reflecte-se na sua música, com um imaginário de sons e palavras (em inglês, francês ou espanhol) que remetem para a América Latina, para a vida cigana ou para a cultura árabe. Lhasa começou a cantar com 13 anos em cafés e bares de São Francisco, Califórnia, com um repertório retirado do jazz. Mantendo a itinerância e o espírito de saltimbanco, a artista passou pelo Canadá, onde compôs o primeiro álbum, “La Llorona”, editado em 1997. Depois de uma longa pausa, editou "The Living Road" (2003). No ano passado, quando já se encontrava doente, Lhasa terminou o seu último disco, “Lhasa”, e, em Maio, chegou fazer dois concertos de apresentação no Théâtre Corona de Montreal e no Théâtre des Bouffes, em Paris. Segundo o comunicado do agente, a cantora preparou uma tournée internacional que devia ter arrancado durante o Outono de 2009, mas foi anulada. Lhasa trabalhava ainda num novo disco, onde interpretaria canções dos artistas chilenos Victor Jara e Violeta Parra. Os seus três discos venderam mais de um milhão de cópias em todo o mundo.

EU CONTO sugere:

CD mais representativo: The Living Road (2003)
O último CD: Lhasa (2009)
Site oficial: http://lhasadesela.com/
Para ouvir na TSF

Segredo

Alan Boileau: Nude with flower

















Nem o Tempo tem tempo
para sondar as trevas

deste rio correndo
entre a pele e a pele

Nem o Tempo tem tempo
nem as trevas dão tréguas

Não descubro o segredo
que o teu corpo segrega

sábado, 2 de janeiro de 2010

Vento no rosto

Maria Lameira: Entardecer no Alentejo
À hora em que as tardes descem,
noite aspergindo nos ares,
as coisas familiares
noutras formas acontecem.

As arestas emudecem.
Abrem-se flores nos olhares.
Em perspectivas lunares
lixo e pedras resplandecem.

Silêncios, perfis de lagos,
escorrem cortinas de afagos,
malhas tecidas de engodos.

Apetece acreditar,
ter esperanças, confiar,
amar a tudo e a todos.

António Gedeão
in Movimento Perpétuo, 1956

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Dia Mundial da Paz

Ode à Paz

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!
in O Sol nas Noites e o Luar nos Dias, II

Henryk Górecki: Totus Tuus, Op. 60
The Sixteen conducted by Harry Christophers


É interessante ouvir um coro de música renascentista, interpretar (magnificamente!) uma obra de tão importante compositor da nossa era!

Ano Novo

Lauren Edmond: New Year's Day
O dia, hoje, foi uma taça plena,
o dia, hoje, foi a imensa onda,
hoje, foi toda a terra.
Pablo Neruda (1904-1973)
in Los versos del Capitán