quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Balanço


Fim de Ano!... Um olhar para o passado, talvez em jeito de balanço. Olhar sério, olhar profundo: o tempo escorre na ampulheta da vida... Um olhar que se deita para trás, que procura avaliar o que se fez. Várias coisas bem, é certo: são elas que mais valorizamos. Mas entre o bem que fazemos, podemos pensar no bem onde colocámos o nosso amor, e é um bem, bem feito. Encontraremos então muitas acções que resultam num bem, mas não foram revestidas do nosso empenho e cuidado, não saíram realmente do coração. Foram um bem menos bem feito!
Nesse olhar para trás encontraremos ainda as nossas omissões: tantas situações que resultaram num vazio, só porque não nos quisemos desassossegar, uma passividade que hoje vemos como uma conveniência pessoal. Oportunidades perdidas... acharemos que o acaso nos vai dar segunda oportunidade? É melhor aproveitar a primeira, sempre que possível!
Mas um ano novo está à porta, uma nova década, como A. M. me lembrava num SMS. Ano Novo, novo ano, cheio de promessas, como tudo quanto é novo... E renovado entusiasmo nos impele a abrir as portas à esperança e entrar com ela no futuro. Bom Ano 2010!

domingo, 27 de dezembro de 2009

Kyrie

Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!
Ary dos Santos

Mozart: Grande Missa em Dó Menor, K427 - Kyrie
Gardiner dirige The English Baroque Soloists e The Monteverdi Choir

sábado, 26 de dezembro de 2009

Plano

Alfred Gockel: Romance in an Exotic Place

Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo
na boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Feliz Natal!

Acompanhar com aquela que é a minha canção de Natal favorita:
Candlelight Carol de John Rutter.
Encontra-se no meu também favorito CD de música de Natal:

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

De quantas graças tinha, a Natureza

De quantas graças tinha, a Natureza
Fez um belo e riquíssimo tesouro,
E com rubis e rosas, neve e ouro,
Formou sublime e angélica beleza.

Pôs na boca os rubis, e na pureza
Do belo rosto as rosas, por quem mouro;
No cabelo o valor do metal louro;
No peito a neve em que a alma tenho acesa.

Mas nos olhos mostrou quanto podia,
E fez deles um sol, onde se apura
A luz mais clara que a do claro dia.

Enfim, Senhora, em vossa compostura
Ela a apurar chegou quanto sabia
De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura.

Luís de Camões
(c. 1524-1580)



"Come again" uma das mais famosas canções de John Dowland.
Valeria Mignaco - Soprano; Alfonso Marin - Alaúde (http://www.lutevoice.com/)

sábado, 12 de dezembro de 2009

Infovini






Gostaria de saber qual o vinho que condiz com a sua personalidade?
(Descubra os seu vinho)
Procura o vinho ideal para determinada ocasião?
(Uma ocasião, um vinho)
Temos um novo portal de vinhos que permite tudo isto e ainda muito mais!
Muito bem concebido! Aqui o recomendo: Infovini

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Rotação

Piet van den Boog: You can only walk with the one who looks you in the eyes ... inside you.


É nos teus olhos que o mundo inteiro cabe,
mesmo quando as suas voltas me levam para longe de ti;
e se outras voltas me fazem ver nos teus
os meus olhos, não é porque o mundo parou. MAS
porque esse breve olhar nos fez imaginar que
só nós é que o fazemos andar.
Nuno Júdice
in Pedro, Lembrando Inês

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Musica Nuda

Standards - No Jazz são os temas que servem de base à improvisação. Os Standards são geralmente temas consagrados porque perduraram no tempo, ou porque alguém os tornou tão conhecidos que estão no ouvido dos vários músicos. As suas compilações são os chamados Real Books.
Surgem hoje novos Standards, baseados em temas da Pop ou do Rock, e há quem muito bem os saiba utilizar. Fiquei surpreendido com os Musica Nuda, apenas Voz e Contrabaixo (Petra Magoni e Ferruccio Spinetti), e muita imaginação! Conheci-os no Mezzo, e aqui os apresento. Pegam em temas de Sting, Beatles, U2, etc., e fazem deles autênticas maravilhas!
Vamos então ouvir I Will Survive, que começa com 2:40 de Contrabaixo a solo, entrando depois a voz:

Sugiro ainda a visualização de Roxanne (Sting) e todos os outros vídeos que há no Youtube!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Meu amor, meu amor


As Palavras das Cantigas (anotações do autor)



















Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.
Meu limão de amargura meu punhal a escrever
nós parámos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos
do nosso entristecer.
Meu amor meu amor
meu nó e sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento
este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos
devagar devagar.

Ary dos Santos (1937-1984)
in As Palavras das Cantigas

Ary dos Santos, falecido há 25 anos, faria hoje 72 anos.
Assinalo esta efeméride com um poema que Alan Oulman tão bem musicou.

sábado, 5 de dezembro de 2009

O teu olhar sustenta o céu imenso


Andas pela casa com passos leves,
pousas a mão no colo, sorris. E eu
acredito que o mundo te acompanha.
Como ecos do que fazes, formam-se
nuvens sobre o mar e cantam pássaros
em países distantes. Sei que é assim.
O teu olhar sustenta o céu imenso,
a luz dos astros, todas as galáxias.

José Mário Silva (n. 1973)
in Nuvens e labirintos

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Bom ou mau

Ser bom, ser mau... isto talvez se resolva pela matemática, uma média aritmética. Se a matemática é infalível, isto deve dar um "mais ou menos"...
Errado! Na vida não se é "mais ou menos"! Umas vezes conseguimos ser bons, outras nem por isso. Fundamental é que os dias em que chegamos ao fim com a sensação de dever cumprido, tranquilos na nossa consciência, prevaleçam sobre os menos bons... aqueles em que achamos que não fizemos o nosso melhor, ou que alguém não teve um dia bom por causa da omissão do que de bom poderíamos ter dado.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O lado de fora

Reflection (Art by Wicks)










Eu não procuro nada em ti,
nem em mim próprio, é algo em ti
que procura algo em ti
no labirinto dos meus pensamentos.

Eu estou entre ti e ti,
e a minha vida, os meus sentidos
(principalmente os meus sentidos)
toldam de sombras o teu rosto.

O meu rosto não reflecte a tua imagem,
o meu silêncio não te deixa falar,
o meu corpo não deixa que se juntem
as partes dispersas de ti em mim.

Eu sou talvez
aquele que procuras,
e as minhas dúvidas a tua voz
chamando do fundo do meu coração.

Manuel António Pina
in Poesia Reunida

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Sonata for Ryuteki and Sho

Alguns minutos de tranquilidade com um compositor de que provavelmente não ouviram falar, mas do qual já falei AQUI:
Alan Hovhaness.
A peça: Sonata for Ryuteki and Sho, op. 121

sábado, 28 de novembro de 2009

Se não falas

Speaking Love (Gilbert "Magu" Lujan)

Se não falas, vou encher o meu coração
Com o teu silêncio, e aguentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite
Em sua vigília estrelada,
Com a cabeça pacientemente inclinada.
A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará, e a tua voz
Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.
Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão
Em flores por todos os recantos da minha floresta.

(1861-1941)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Vintage 2007

2007 foi o ano em que houve mais declarações "Vintage". É assim possível encontrar vinhos do Porto Vintage de boa qualidade em geral , onde a maioria obtém classificações entra 16,5 e 17.
Saliento que os preços foram baseados (sempre que disponível) na consulta à Garrafeira Nacional, a minha preferida, pois a título de exemplo os dois vinhos com 19 valores, podem custar mais 30 Euros noutras lojas!
As minhas escolhas, tendo em conta as notas de prova e a relação qualidade/preço, vão para os seguintes:

----- 19 valores:

Quinta do Vesúvio
, Porto Vintage 2007, €45
Fonseca, Porto Vintage 2007, €55

----- 18 valores:
Quinta da Romaneira
, Porto Vintage 2007, €43

----- 17,5 valores:
Krohn
, Porto Vintage 2007, €21,25
Kopke, Porto Vintage 2007, €35

----- 17 valores:
Barão de Vilar, Porto Vintage 2007, €23
Cruz, Porto Vintage 2007, €30
Quinta do Passadouro, Porto Vintage 2007, €30

Outros vinhos com classificações de 17 ou inferiores, não foram aqui mencionados porque os seus preços eram superiores aos das escolhas apresentadas. Boas provas!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Aprender a estudar















Estudar é muito importante,
mas pode-se estudar de várias maneiras....
Muitas vezes estudar não é só aprender
o que vem nos livros.

Estudar não é só ler nos livros
que há nas escolas.
E também aprender a ser livre,
sem ideias tolas.
Ler um livro é muito importante,
às vezes urgente.
Mas os livros não são o bastante
para a gente ser gente.
É preciso aprender a escrever,
mas também a viver, mas também a sonhar.
É preciso aprender a crescer,
aprender a estudar.

Aprender a crescer quer dizer:
aprender a estudar, a conhecer os outros,
a ajudar os outros,
a viver com os outros.
E quem aprende a viver com os outros
aprende sempre a viver bem consigo próprio.
Não merecer um castigo é estudar.
Estar contente consigo é estudar.
Aprender a terra, aprender o trigo
e ter um amigo também é estudar.

Estudar também é repartir,
também é saber dar
o que a gente souber dividir
para multiplicar.
Estudar é escrever um ditado
sem ninguém nos ditar;
e se um erro nos fôr apontado
é sabê-lo emendar.
É preciso em vez de um tinteiro,
ter uma cabeça que saiba pensar,
pois, na escola da vida, primeiro está saber estudar.

Cantar todas as papoilas de um trigal
é a mais linda conta que se pode fazer.
Dizer apenas música,
quando se ouve um pássaro,
pode ser a mais bela redacção do mundo...
mas pensar é tudo!

(1937-1984)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Direitos da Criança

Em 20 de Novembro de 1989, as Nações Unidas adoptaram por unanimidade a Convenção sobre os Direitos da Criança.
Faz hoje 20 anos (ver Unicef).
É com as crianças e os jovens que trabalho no meu dia-a-dia, é a elas que transmito tudo quanto sei, da música e da vida.
Sinto a forma sincera e incondicional com que se confiam a mim e em mim, sei da responsabilidade de cada palavra ou gesto meu. E do respeito que lhes devo. Por isso, de forma paternal, a elas entrego o meu conhecimento e a minha amizade. Cada aluno sabe que teve/tem/terá em mim mais do que o professor. Confio a cada um a minha arte, e uma grande parte da minha vida.

E porque tenho lido muito de Eugénio de Andrade, aqui deixo um dos seus textos que lhes dedico neste dia:

Em Louvor das Crianças

«Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultâneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso. A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis — elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue. O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus.» (1)
in Rosto Precário

(1) - Nota do bloguista: filhos de Deus somos... ainda que tantas vezes não o pareçamos, e tanto tempo demoremos a aprender tal.
Miserere mei, Deus: secundum magnam misericordiam tuam.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Green God (o Verde Deus)

Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce

Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos.
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
a um ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
duma flauta que tocava.

Na Flauta de bambu: Manose (Flautista Nepalês)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Estação do Livro 2009

Hoje Eu Conto que a Estação do Livro tem o seu início na Biblioteca Municipal do Seixal.
Muitas são as actividades que podem ser consultadas no respectivo site, mas vou aqui "puxar a brasa à minha sardinha": noticio que o meu grupo da música não erudita, Chá dos 5, irá de novo fazer o encerramento no dia 27 de Novembro, pelas 21:30 h, na Biblioteca Municipal do Seixal. Todos estão convidados a comparecer!
Deixo algumas palavras sobre esta actividade, que retirei do site da Câmara Municipal:
"A Estação do Livro acontece este ano de 16 e 27 de Novembro na Biblioteca Municipal do Seixal e em todas as escolas pertencentes à Rede de Bibliotecas Escolares. São trinta e uma as escolas que integram esta rede concelhia, onde vão decorrer um conjunto de iniciativas de animação e promoção da leitura, que vão desde encontros com autores, ateliês, mesas redondas, feiras do livro, exposições e workshops.
O destaque desta edição é o tema anual da Biblioteca: Ver e Olhar. É este o ponto de partida para as actividades que vão envolver professores e alunos, e que pretendem reforçar o olhar atento sobre a arte e a representação.
Além das propostas que decorrem nas Escolas e das Iniciativas Itinerantes, a Biblioteca apresenta ainda um programa com acções de formação orientadas para professores, uma sessão de Conversas com a Escrita e o Café-concerto de encerramento desta estação, mais uma vez ao som do grupo Chá dos 5."

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Tempo


Não sei se te nomeie ou nomeie o vento,
isto que passa
e procura os outros lugares onde o pólen cai.
Talvez uma colmeia confie ao seu mel o que
ficou de um ano
em que a tempestade não se fez ouvir sobre
as corolas.
O que viste antes de Setembro perdeu-se,
apagou-se,
afastou-se sem dizer nada,
como os barcos que pouco a pouco se
afastaram da nossa vida,
calados e brancos,
com as suas gaivotas de asas fechadas,
envelhecendo lado a lado, sobre o convés.

(1948)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O Amor

O Amor.
Queremo-lo infinito.
Em nós e no mundo.
Chamamos por ele, e quantas vezes com a alma aos berros!
Não precisamos de tanto, o amor é pássaro assustadiço, foge dos nossos ruídos interiores.
Não é tempestade nem chuva que enlameie o nosso ser.
É antes nuvem clara, brisa suave.
Escancaramos a alma e ele parece não entrar.
E contudo basta-lhe uma pequena fresta.
Para receber o Amor mais puro não necessitamos gritar.
Basta abrir a alma em esperança, qual flor que se abre para recolher as gotas do orvalho.
José Rui

P.S. - Sim, depois vem a parte mais difícil... conservar, acrescentar, partilhar essas gotas de orvalho!...

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Enamorarse y no

Cuando uno se enamora las cuadrillas
del tiempo hacen escala en el olvido
la desdicha se llena de milagros
el miedo se convierte en osadía
y la muerte no sale de su cueva
enamorarse es un presagio gratis
una ventana abierta al árbol nuevo
una proeza de los sentimientos
una bonanza casi insoportable
y un ejercicio contra el infortunio
por el contrario desenamorarse
es ver el cuerpo como es y no
como la otra mirada lo inventaba
es regresar más pobre al viejo enigma
y dar con la tristeza en el espejo.


(1920-2009)

Foi um desafio: encontrar uma tema musical para este maravilhoso poema de Benedetti, esse verdadeiro Gentilhombre.
Encontrei uma pérola: Narciso Yepes a interpretar o 2º and. da Fantasía para un Gentilhombre de Joquín Rodrigo.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Com as gaivotas

Espinho, Out. 2009 - Foto de minha autoria

Contente de me dar como as gaivotas
bebo o Outono e a tarde arrefecida.
Perfeito o céu, perfeito o mar, e este amor
por mais que digam é perfeito como a vida.

Tenho tristezas como toda a gente.
E como toda a gente quero alegria.
Mas hoje sou dum céu que tem gaivotas,
leve o diabo essa morte dia a dia.


(1923-2005)
Não resisti a continuar com Eugénio de Andrade...

domingo, 8 de novembro de 2009

Despertar

É um pássaro, é uma rosa,
É o mar que me acorda?
Pássaro ou rosa ou mar,
tudo é ardor, tudo é amor.
Acordar é ser rosa na rosa,
canto na ave, água no mar.

Eugénio de Andrade
(1923-2005)

Novo prémio!

Novo prémio para este blogue!
Tia_Cunhada (não, não é minha tia nem minha cunhada, como tantos perguntam!), do blogue Coisas da Tia ZEN achou que o Eu conto, merece nota 10 na escala de... bem, espero que seja na escala até 10!
Agradeço tal distinção, e saliento que este prémio impõem algumas responsabilidades que não vou cumprir ainda, já que irei fazer uma página para colocar os vários prémios. Aí então escreverei o que me é pedido.

Obrigado, Tia_Cunhada!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A meio do caminho

Alameda dos liquidâmbares, Serralves, Porto, Out. 2009 - Foto de minha autoria


Fico entre o céu e a terra,
Choro só para dentro.
Sou como a árvore nua
que ao alto os ramos indica:
ergue as asas, mas não voa,
tem raízes, mas não desce.
(1928-2007)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

MySpace

Já visitaram o meu MySpace?
Certamente que já terão ouvido (espero!) as gravações que lá partilho, bem como o vídeo de um excerto de Militango.
Mas agora podem ver um vídeo que Jacinta gentilmente disponibiliza, com um dos temas que integra o seu CD "Songs of Freedom".
Deliciem-se, como eu me deliciei!

domingo, 1 de novembro de 2009

A Vida

Gustav Klimt: A árvore da vida (detalhe da zona central)

Hoje é o dia em que a tradição da Igreja Católica celebra aqueles que já partiram e, assim acredita, alcançaram já a plenitude da comunhão divina.
Isto faz-me reflectir sobre o que é a vida, esse dom que recebemos mas do qual não somos donos. Devemos ter consciência de que a vida nos é dada para a fazer frutificar! E não falo apenas de filhos, essa vida que nasce da nossa vida! Falo também de cultivar esse dom da vida no conhecimento, na vivência espiritual, no amor, nunca deixando que ela seja prisioneira das nossas próprias mãos. Viver na passividade é morrer antes de o corpo ter falecido! É assim que o próprio Homem introduz no mundo a verdadeira morte.
A vida e o que frutifica desse dom, quer circular continuamente tal como a água que corre: se a retemos torna-se salobra, estagnada, apodrece e morre. Colocarmo-nos voluntariamente à margem da corrente da vida, é o maior de todos os nossos pecados. É verdadeiramente a nossa entrega à morte eterna: não dar amor, e por vontade própria renunciar ao amor que nos é dado.
Procuremos então VIVER!

sábado, 31 de outubro de 2009

A violeta mais bela que amanhece

A violeta mais bela que amanhece
No vale, por esmalte da verdura,
Com seu pálido lustre e fermosura,
Por mais bela, Violante, te obedece.

Perguntas-me porquê? Porque aparece
Em ti seu nome e sua cor mais pura;
E estudar em teu rosto só procura
Tudo quanto em beldade mais florece.

Oh luminosa flor, oh Sol mais claro,
Único roubador de meu sentido,
Não permitas que Amor me seja avaro!

Oh penetrante seta de Cupido,
Que queres? Que te peça, por reparo,
Ser, neste vale, Eneias desta Dido?
Luís de Camões
(c. 1524-1580)

Dido e Eneias, de Henry Purcell (1659-1695)
No final do 1º minuto poderão ouvir uma das mais belas árias da história da música.
Nesta brilhante interpretação:
Dido - Stéphanie d'Oustrac; Les Arts Florissants dirige William Christie.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Porto dos meus amigos

Foto de minha autoria
Epígrafe

As pontes multiplicam o cansaço. Porém, há duas
margens para o deslumbramento ___nas cidades
felizes, é costume atravessar o rio sem lhe tocar.


Manuela Parreira da Silva (1950)
(in O Álbum de Vishnu)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Songs of Freedom

A minha amiga Jacinta acaba de editar um novo CD na Blue Note.
«Songs Of Freedom - Hits From The 60's, 70's And The 80's» assinala o regresso de Jacinta à Blue Note, editora onde se estreou em 2003.
O álbum, que foi lançado no dia 26 de Outubro, foi apresentado no início deste ano no Teatro São Luiz e durante nove noites consecutivas teve lotação esgotada.

Neste novo projecto, Jacinta interpreta grandes clássicos do pop e do jazz das décadas de 60, 70 e 80. Bob Marley, Nina Simone, Bee Gees, Beatles, Beach Boys ou Stevie Wonder são alguns dos artistas dos quais a nossa Diva escolheu temas para integrar o disco.

«Fomos para estúdio um único dia, no meu aniversário. Desejando passar a veracidade da música e combater o excesso de produção a que toda a música é sujeita nos dias de hoje, levámos connosco o João Paulo Nogueira, nosso técnico de estrada, e a Joana Pereira, que, na captação directa do som e na regie, foram garantindo que o que era gravado era genuíno e não se afastava muito das actuações ao vivo. Juntámos o piano com o saxofone e a voz uma única vez, ficando o registo da descoberta musical de cada intérprete», assim afirmou Jacinta a propósito do novo projecto discográfico, «Songs Of Freedom - Hits From The 60's, 70's And The 80's».

Eis aqui o alinhamento do álbum que pode ser ouvido no seu MySpace:

1. «Redemption Song»
2. «I wish I knew how it would feel to be free»
3. «How Deep is your love»
4. «Surfin' USA»
5. «And I Love Her»
6. «I Got You (I Feel Good)»
7. «Georgia on My Mind»
8. «My Baby Just Cares for me»
9. «Don't Worry Be Happy»
10. «Sir Duke»
11. «Where The Streets have no name»
12. «Redemption Song»

"A Jacinta apresenta uma voz e um estilo muito próprios em "Songs of Freedom". Ela conseguiu imprimir um estilo pessoal e muito original a um conjunto diversificado de clássicos do pop e do jazz" (Bruce Lundvall, Presidente do Grupo Blue Note)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Playing For Change


Playing For Change
: A paz através da música

Playing For Change Foundation, é uma organização sem fins lucrativos que ajuda a levar a música para a vida dos jovens desfavorecidos.
Fiquei particularmente sensibilizado com um vídeo extraído de um DVD realizado por esta organização, que mostra como a música quebra fronteiras, une os povos e se torna uma linguagem universal. Vele a pena conhecer! Aqui o partilho:

Stand by Me (o famoso tema de Ben E. King)

domingo, 25 de outubro de 2009

Just perfect!

Ana Paula surpreendeu-me com o prémio "Esse blog é VIP" que agradeci no comentário da mensagem anterior. Aqui dou notícia dessa distinção que muito me alegra! Só pode responsabilizar-me ainda mais nas minhas escolhas e reflexões, e aumentar o meu entusiasmo na sua partilha!

Obrigado, Ana Paula!

sábado, 24 de outubro de 2009

Ao longe os barcos de flores

Foto: Kerry Kriger - O sol da meia-noite, Stikkysholmur, Islândia.
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
- Perdida voz que de entre as mais se exila,
- Festões de som dissimulando a hora

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...

(1867-1926)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Moscatel de Setúbal

Depois do Vinho do Porto, ou talvez até a par dele, o Moscatel de Setúbal é um dos nossos grandes vinhos fortificados. Algumas garrafas vão tomando lugar na minha garrafeira, exactamente a par dos Portos! Vou coleccionando, mas todas aguardam o momento e companhia certas!

Desde algum tempo que o Moscatel de Setúbal Bacalhôa, domina o mercado da grande produção, com uma qualidade/preço imbatível (geralmente à venda passados 10 anos da colheita) (aprox. 13 €).

Mas hoje quero destacar aqui um moscatel diferente, saído das mãos de Soares Franco, um desses vinhos que tem uma produção mais limitada e que exprime o saber deste enólogo: trata-se do Domingos Soares Franco Colecção Privada Moscatel Roxo 1998 (aprox. 19 €). De aroma muito complexo, sugerindo passas, frutos secos, ameixa, algum bálsamo à mistura, tudo muito bem proporcionado. Cremoso na boca e com um longo final.

Pode provar-se também Domingos Soares Franco Colecção Privada Moscatel 2003 (aprox. 16 €): aroma muito intenso e elegante, com notas de passa de uva, figo seco, resinas, casca de laranja, num todo bastante complexo e rico. Na boca é untuoso, substancial, com sugestões de citrinos e cacau. Elegante, com um grande final, longo e cheio de aromas.

Então e o Moscatel do Douro? Perguntarão. Há ainda um longo caminho a percorrer!.. Durante muito tempo produziram-se apenas moscatéis de qualidade mediana, sem grandes pretensões, só bebíveis bem frescos (10ºC), como aperitivo. A Quinta do Portal (12€) lançou o seu reserva, já de qualidade considerável, e o conhecido Favaios lançou recentemente o seu 10 anos (16€), num lote capaz de causar já alguma surpresa.

Um conselho: O Porto Vintage ou LBV para o queijo, o Tawny ou Colheita velhos para a conversa, tal como o Moscatel velho, e o Moscatel mais recente para acompanhar a sobremesa (ligeiramente fresco, pelos 16ºC).

Os links que aqui coloco que apontam para a Garrafeira Nacional, não são inocentes! Aprecio muito esta loja, que também vende online, é especializada, e pratica preços idênticos aos das grandes superfícies!

domingo, 18 de outubro de 2009

A presença mais pura



Nada do mundo mais próximo
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância da língua comum deixaste
o teu coração?»

A altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos do supermercado que se expandem nas gavetas
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um "não esquecer" fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso
porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome
Ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância deixaste
o coração?»

Aceitei o desafio da Eduarda para encontar uma música que ilustrasse "A presença mais pura". Pensei num tema com grande simplicidade, clareza harmónica, que à pergunta "a que distância deixaste o coração?", nos levasse a interrogarmo-nos, e no final da sua audição nos fizesse sentir mais próximo daqueles que tantas vezes ignoramos, daqueles que o acaso (?) coloca no nosso caminho, e escutar no nosso coração o apelo da "Mulher vestida de sol".

Sobre o compositor, Arvo Pärt, pode ler-se o que referi na mensagem de 08.05.09. Sobre a peça, Spiegel im Spiegel, pode ler-se algo AQUI.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Ode à esperança


Crepúsculo marinho,
no meio
da minha vida,
as ondas como uvas,
a solidão do céu,
me enches
e desbordas,
todo o mar,
todo o céu,
movimento
e espaço,
os batalhões brancos
da espuma,
a terra alaranjada,
a cintura incendiada
do sol em agonia,
tantos
dons e dons,
aves
que acodem a seus sonhos,
e o mar, o mar,
aroma
suspendido,
coro de sal sonoro,
enquanto
nós,
os homens,
perto da água,
lutando
e esperando
junto ao mar,
esperando.

As ondas dizem para a costa firme:
"Tudo será cumprido".
Pablo Neruda (1904-1973)
in Odas Elementales.

Aqui vou construindo o meu álbum de poemas, aqueles que encontram mais significado na minha vida.
Neruda está presente desde a minha juventude.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Os amigos



Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura


Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis


Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor

José Tolentino de Mendonça (1965)
De Igual Para Igual


Já por aqui passou este poema, mas fez sentido que agora passasse novamente.
Ilustrei-o com esta bela peça de Couperin (1668-1733):
Les Barricades Mystèrieuses (no Cravo, Scott Ross)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Revelar


Costumam revelar a amizade, o amor, àqueles que amam ou de quem são verdadeiros amigos? "Ah, eles sabem, sentem-o claramente!" - é um argumento habitual. Mas na verdade todos anseiam essa revelação, esse "conta com a minha amizade" ou "é a ti que eu amo", ouvi-lo vezes sem conta ao longo da vida, mesmo que se saiba que assim é.
Repetir esse voto é também a sua renovação. E a amizade, o amor, querem-se sempre renovados, nunca estagnados. Repetir essa afirmação é bom para o outro, é bom para nós. Que sentido tem a vida se não tivermos a quem o dizer? E se não ouvirmos de alguém esse "preciso de ti"?
A amizade e o amor são um contínuo dar a vida ao outro, e recebê-la dele.
JRF

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Musical(idade)


Depois de trabalhar até tarde num rol de partituras, ouvi e sosseguei com este tema de Sakamoto, enquanto tomava Um Chá no Deserto. E gostei... da música e do Chá! Trouxe de lá um poema, escrito por AnaMar, para o Dia Mundial da Música:

E(n)levo
a
melodia rente ao coração.

Maestro que sabe de cor
sem ler
a
arte
e
técnica
de combinar os sons
sem
pauta
cem
notas
uma
clave de sol.

Orquestra
os
s
e
n
t
i
d
o
s
à flor da (minha) pele.

Música pelos teus dedos tocada...

Sinfonia ritmada
romance
paixão
aventura
tatuagem de papel.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Os amigos

no regresso encontrei aqueles
que haviam estendido o sedento corpo
sobre infindáveis areias
tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as máscaras
esculpidas pelo dedo errante da noite
prendiam sóis nos cabelos entrançados
lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei
depois
a solidão transformou-se de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume
ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em retoma e resignada ausência
(1948-1997)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A terra que nós somos

Terra. Nós somos como ela. Cai em nós a semente trazida pelo vento de um encontro, de uma conversa, de uma leitura, de uma mensagem, de uma música: somos terreno para tudo germinar em nós.
Que nasce dessa semente? Dará fruto? A variedade do fruto conforme a semente, a qualidade do fruto conforme a qualidade da terra. Mas há ainda aquilo que alimenta esse terreno e o torna fértil, a água que o rega, o sol que nele bate, a matéria biológica que o torna mais rico. Assim como em nós o nosso pensar, sentir, viver...
Somos terreno onde cresce o belo fruto, ou onde podem germinar ervas daninhas que impedem o fruto de crescer. E não o deixemos ao acaso, aí deveremos intervir nós: cuidar do que nasce no nosso terreno, permitir que o fruto seja cada vez melhor em força e virtude, e limpar a terra de tudo o que a esse fruto possa causar dano.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Mais uma explicação de ternura

Pin – Uma explicação de ternura
10 de Outubro (sábado)
16.00 horas
Núcleo Arqueológico da Manutenção Militar
(entre a Igreja Madre Deus e o Convento do Beato)

________ Tal como pude referir por ocasião do lançamento no Porto, Luísa Azevedo, a autora, já nos revelou belos poemas no seu blogue pin-gente, e nos comentários que gentilmente aqui nos oferece.
Fica o CONVITE para este evento que bem merece a presença de todos, agora dirigido aqui aos amigos da região de Lisboa. Se tal não for possível, não deixem de procurar esse livro, “uma mescla única de palavras e imagens, em que a poesia extravasa do papel para os sentires de quem a lê”.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Cume

------------------------------------
Fiz do amor o cume
De um universo de esperança
------------------------------------
E posso extrair do coração
O tempo de ser sempre melhor
------------------------------------
Paul Eluard in "Algumas das Palavras"
Tradução de António Ramos Rosa

sábado, 3 de outubro de 2009

O entardecer

Leves sejam para ti, ao entardecer,
As minhas palavras, como o rastilhar das folhas
Da amoreira, nas mãos de quem as colhe
Silencioso, e ainda se demora no lento trabalho
Ao cimo da escada, escurecendo
Junto ao tronco, que se tinge de prata
Com os seus ramos nus,
Enquanto a Lua se aproxima das soleiras
Azuladas, e estende diante de si um véu
Onde jaz o nosso sonho,
Parecendo que o tempo já se sente
Por ela submerso no gelo nocturno
E que dela já bebe a esperada paz,
Sem vê-la.

Louvado sejas, ó entardecer, pelo teu rosto de pérola,
E pelos teus grandes olhos marejados,
Onde vem desaguar a água do céu!

(...)
Gabriele d'Annunzio
(1863-1938)
O entardecer em Fiésole

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Escutas em Belém

Neste Dia Mundial da Música proponho escutar música! E se a quiserem escutar em Belém, ao vivo e com entrada livre, proponho o programa do Museu da Presidência da República a propósito do seu 5º aniversário! Hoje teremos Maria João e Mário Laginha, e a Escola de Jazz do Hot Clube!

Mais a norte, a Casa da Música terá palcos itinerantes pelas ruas do Porto, em autocarros, envolvendo cerca de 150 músicos!

E já agora, abra essa garrafa e brindemos a este dia!

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Autumn Leaves

Vamos lá dar um pouco de Jazz a este Outono, até porque amanhã estarão à venda os bilhetes para o Seixal Jazz! Não quero perder nenhum concerto!
Aqui temos Stanley Jordan a interpretar Autumn Leaves. Tenho o CD e julgava que Stanley Jordan tinha duplicado a guitarra... afinal toca duas guitarras!

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Outono

Foto: Matt Cline















Não é agora Verão, nem aqui tornam
Os dias indiferentes do passado.
Já Primavera errada se embuçou
Numa dobra do tempo castigado.
É tudo quanto tenho, o fruto puro
Sob o calor de Outono amadurado.

domingo, 27 de setembro de 2009

Redescobrir Bach

O que poderá descobrir-se ainda na música de Bach? Tanto! E já nem falo de descobrir a beleza de obras menos ouvidas!
À medida que se vai investigando, e assim nos aproximamos do pensamento do mestre, surgem novas visões de algumas das suas obras. Sobre uma parte irei falar brevemente, mas hoje falo de outra recém editada em disco: J. S. Bach: Rediscovered Wind Concertos.
Iremos então perceber, por exemplo, que o andamento lento do Concerto de Oboé em Ré Maior, pode ser ouvido num arioso da Cantata BWV 156, Ich steh mit einem Fuss im Grabe (Paul Van der Linden no Oboé):



E também no Concerto para Cravo Nº 5 em Fá Menor, BWV 1056 (Trevor Pinock no Cravo):



Deduzindo-se então que (por mais alguns motivos adicionais) possivelmente tenha sido também tocado como um concerto para Oboé e Orquestra, aqui em primeira audição neste CD.
Algumas outras peças do CD J. S. Bach: Rediscovered Wind Concertos sofreram igual tratamento, muito interessante de ouvir e de redescobrir peças que até estarão no ouvido, mas noutro contexo.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Vamos a votos

A campanha eleitoral chega hoje ao fim. Ficou devidamente esclarecido? Acha que sabe em que partido votar segundo a sua consciência e opinião? Está seguro disso? Ainda está indeciso?
O site Bússola Eleitoral dá uma ajuda ao nosso esclarecimento. Já que não conseguimos ler o programa eleitoral de todos os partidos, podemos pelo menos comparar as suas principais linhas com as nossas ideias. Não é um jogo ou brincadeira! E se o resultado for diferente do que esperava... bem, pode sempre rever se houve algum engano na sua resposta. Se mesmo assim continua a dar o resultado que não imaginava, talvez seja altura de dar voz a quem defende as suas ideias, mesmo que seja um pequeno partido a desbravar terreno para um dia ter lugar no parlamento (o site permite até indicar o grau de confiança em cada líder!).
A teoria do voto útil tem dado grandes inutilidades!

Dar-te-ei a mão









dar-te-ei a mão no silêncio,
na escuridão da noite,
quando não tiveres outra para apertar.
entender-te-ei os meus braços para um abraço,
no frio de um inverno solitário,
na ausência de uma meiga voz em teu ouvido,
ou quando o teu corpo se sentir vazio.
beijar-te-ei na face,
na angústia de uma cinzenta madrugada,
quando dos teus olhos se rasgar uma brilhante estrada.
quando menos esperares eu chegarei a ti!


Poema inspirado pelo post anterior, voo que aqui faz sentido destacar.
Obrigado Luísa, pela ternura que trazes a este blogue!

domingo, 20 de setembro de 2009

Ajudar o próximo

Ajudar o próximo nem é assim tão difícil! Uma contribuição monetária para uma instituição que lhe dará apoio, que tratará da sua saúde, e a nossa consciência fica tranquila! Mas se esse próximo está mesmo próximo? Quero dizer, se esse próximo está tão perto de nós que nos cruzamos diariamente com ele? E se for nosso colega? E se for um nosso amigo? E se até for nosso familiar? E se é alguém cujo olhar nos interpela, alguém que precisa de nós enquanto pessoa, e não dos nossos bens? E se ele nem for muito amável connosco, nem reconhecido para com o nosso gesto?
Ajudar o próximo torna-se assim em algo mais difícil, temos que ser nós a fazê-lo, de forma sincera e desinteressada, e não podemos "comprar" quem o faça por nós!
A esse ajudar o próximo chamaremos antes "amar o próximo", e o amor dá-se: não se compra nem se vende!
E o próximo ali está... tão próximo todos os dias!...

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Uma explicação de ternura

20 de Setembro (domingo)
16.00 horas
Ateneu Comercial do Porto
Lançamento do livro Pin – Uma explicação de ternura

Luísa Azevedo, a autora, já nos revelou belos poemas no seu blogue pin-gente, e nos comentários que gentilmente aqui deixa.
Fica o CONVITE para este evento que bem merece a presença de todos. Se tal não for possível, não deixem de procurar esse livro, “uma mescla única de palavras e imagens, em que a poesia extravasa do papel para os sentires de quem a lê”.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Quase retrato












(a J. R. Fernandes - Quase retrato)

A mão
que prende e dá
o tom perfeito
da ária inacabada
do meu pranto
é mão
e verbo no sujeito
compondo a melodia
doutro canto...
e tocando, afaga
acarinha
a divina flauta Pastoril
e é o próprio Pã
Primaveril
que à Natureza acorda
do quebranto!...
Maria Mamede, 14/09/09
in Mãos

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O que estou a ouvir

Por vezes a música inspira a poesia. Outras, é a poesia a inspirar a música.
Depois de ler um poema de Maria Mamede, foi este o tema que fiquei a ouvir:
De Claude Debussy (1862-1918), Syrinx (uma obra prima para Flauta solo!), aqui interpretado por Paula Robison.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O corpo não espera












O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sede, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo.

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.
in Antologia Poética

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A de sempre, toda ela

Quadro:
A possible dream
William Duncan












Se eu vos disser: «tudo abandonei»
É porque ela não é a do meu corpo,
Eu nunca me gabei,
Não é verdade
E a bruma de fundo em que me movo
Não sabe nunca se eu passei.

O leque da sua boca, o reflexo dos seus olhos
Sou eu o único a falar deles,
O único a ser cingido
Por esse espelho tão nulo em que o ar circula através de mim
E o ar tem um rosto, um rosto amado,
Um rosto amante, o teu rosto,
A ti que não tens nome e que os outros ignoram,
O mar diz-te: sobre mim, o céu diz-te: sobre mim,
Os astros adivinham-te, as nuvens imaginam-te
E o sangue espalhado nos melhores momentos,
O sangue da generosidade
Transporta-te com delícias.

Canto a grande alegria de te cantar,
A grande alegria de te ter ou te não ter,
A candura de te esperar, a inocência de te conhecer,
Ó tu que suprimes o esquecimento, a esperança e a ignorância,
Que suprimes a ausência e que me pões no mundo,
Eu canto por cantar, amo-te para cantar
O mistério em que o amor me cria e se liberta.

Tu és pura, tu és ainda mais pura do que eu próprio.

Paul Eluard in "Algumas das Palavras"
Tradução de António Ramos Rosa

domingo, 6 de setembro de 2009

O que estou a ouvir

Vivaldi - Stabat Mater
Acordei com esta melodia na cabeça (quase no ouvido!).
Vim ouvi-la enquanto comentava uma mensagem num blogue amigo. E continuei a ouvir.
Trata-se de obra composta para um festival de música sacra que, segundo parece, terá sido composta um pouco apressadamente, dada a simplicidade com que estão escritas as cordas, e o recurso a repetições. Mas essa simplicidade confere-lhe uma enorme clareza para a bela linha melódica. Uma daquelas melodias que fica a cantar na nossa cabeça!
Deixo a sugestão de audição... para hoje ou outro dia.
(Neste excerto ouviremos a interpretação do grande contratenor Andreas Scholl)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Carta de José a José

Eu te digo, José: por esta carta
Não garanto mentira nem verdade:
A ciência de mim se aparta
Desta náusea de ser e de vontade.
São inúteis cobiças, vãos desgostos,
São braços levantados, já caídos,
São as rugas que vincam os cem rostos
Da comédia e do jogo repetidos.
Desse lado da mesa (ou deste espelho)
Vais seguindo as palavras invertidas:
Verás melhor assim se (quanto) valho
Ao invés dos sinais e das medidas.
(Correm águas geladas no meu rio,
E mortos cantos de aves, derivando
Por silêncio frustrado e calafrio,
Vão manhã doutro dia recordando.)
Cai a chuva do céu, e não te molha,
Está a noite entre nós, e não te cega.
Não sorrias, José: à tua escolha
O que me sobra de alma se me nega.
Desse lado da mesa, onde me acusas,
Te levantas. A marca do teu pé,
Na soleira da porta que recusas,
Fecha de vez a carta abandonada.
Tua sombra pisada, teu amigo — José.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Um portal no feminino

Maria João Almeida, conquistou o seu espaço e os seus leitores, desbravando terreno num campo predominantemente masculino. Creio ser actualmente a única mulher em Portugal a escrever sobre vinhos! O sucesso do trabalho desta enófila ganha agora maior visibilidade no portal recém lançado, ainda com alguns capítulos em construção, mas já bem recheado de conteúdo!
Notas de prova, notícias diárias, receitas, clube de vinhos, e ainda, retirando as palavras do próprio portal, "uma forte componente de gastronomia e turismo, áreas necessariamente relacionadas com o vinho, nobres uvas que a natureza produz e o homem sabiamente transforma."
Os meus parabéns e votos de sucesso! Serei leitor assíduo e recomendo-o aos meus leitores!

sábado, 29 de agosto de 2009

O que estou a ouvir

Musicalmente falando sou, como já dizia Sócrates - o filósofo - um "cidadão do mundo". E não me refiro apenas à música erudita, onde nunca olho a nacionalidades para a escolha de uma obra a interpretar. O mesmo sinto em relação às músicas nacionais de diversos países. Como não adorar a flauta irlandesa (grande Chris Norman!) e a adorável música que com ela se faz?
Mas hoje falarei de um instrumento que canta a identidade de um povo. Um instrumento que chora as mágoas do primeiro genocídio do séc. XX, mas também canta as glórias da enorme riqueza cultural que esse país possui e espalha pelo mundo. O país: Arménia; o instrumento: Duduk.
Fiquei impressionado com a beleza da música que é possível extrair de um instrumento tão simples e tão limitado no número de notas (genericamente apenas uma oitava), cujas origens remontam a 3000 anos. Mas o que lhe falta em recursos compensa-o em expressão. Oiça-se um dos grandes intérpretes, Jivan Gasparyan, e logo se compreenderá do que falo!
O CD que estou a ouvir resulta do encontro de Jivan Gasparyan com o iraniano Hossein Alizedeh (um dos mestres do Tar, um alaúde persa), ao qual se juntam outros grandes músicos. Reuniu-se assim um grupo que interpreta músicas da tradição arménia e persa, com momentos de uma beleza quase hipnótica, capaz de nos transportar para outras paragens, com sonoridades bem distintas da nossa música ocidental. Uma descoberta para mim que aqui partilho, um CD para "espreitar" na Amazon (ou onde o encontrarem!...).

Um agradecimento à minha colega arménia Marina Dellalyan, que me sensibilizou para uma mais atenta audição do Duduk e indicou alguns nomes dos seu principais executantes.
Acrescento ainda que o Duduk e sua música foram decretados pela UNESCO, em 2005, Património Cultural Imaterial da Humanidade.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Escreva!

«O Mestre diz: Escreva! Seja uma carta, um diário ou algumas anotações enquanto fala ao telefone — Mas escreva! Escrever nos aproxima de Deus e do próximo. Se você quiser entender melhor seu papel nesse mundo, não deixe de escrever. Procure colocar toda a sua alma por escrito, mesmo que ninguém leia — ou, o que é pior, mesmo que alguém termine lendo a parte que você não queria que fosse lida. O simples facto de escrever nos ajuda a organizar nossos pensamentos e ver mais claramente o que está à nossa volta. Um papel e uma caneta operam milagres — aliviam a dor, transformam sonhos em realidade e recuperam a esperança perdida. "A palavra tem poder".»

in Maktube (1994)

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Ano Internacional da Astronomia

Comemoram-se hoje os 400 anos da apresentação do telescópio de Galileu (precisamente a 25 de Agosto de 1609) - muitos já se terão apercebido disso pelo evocativo logótipo do Google. Por tal efeméride, foi decretado o ano 2009 Ano Internacional da Astronomia. Recomendo uma visita ao site http://www.astronomia2009.org/, da responsabilidade da Sociedade Portuguesa de Astronomia.
Destaco esta data com o enorme gosto em divulgar uma ciência que é também praticada por muitos amadores em todo o mundo, e que eu muito aprecio desde criança.

domingo, 16 de agosto de 2009

Retrato

Quadro de Rafał Olbiński














No teu rosto começa a madrugada.
Luz abrindo,
de rosa em rosa,
transparente e molhada.

Melodia
distante mas segura;
irrompendo da terra,
quente, redonda, madura.

Mar imenso,
praia deserta, horizontal e calma.
Sabor agreste.
Rosto da minha alma.
Eugénio de Andrade
in Os Amantes Sem Dinheiro